segunda-feira, 30 de novembro de 2009

2012 - Realmente, uma catástrofe


Fui ao shopping com o namorido nesse domingo, com um objetivo exclusivo que não conseguimos cumprir por culpa de uma vendedora vaca estúpida mal educada sem vontade de trabalhar. Já que estávamos lá, resolvemos ir ao cinema, para não perdermos a viagem. Eu queria ver Julie & Julia, mas achei que o Dé iria acabar dormindo durante o filme, e eu ia me irritar com a insensibilidade masculina. Então assistimos ao 2012. E como eu não sou chegada ao subgênero de filmes-catástrofe, ele ficou me devendo a escolha do próximo, e vai ter que ficar acordado até o fim (nem que eu precise fazer cócegas para garantir que isso aconteça).

Quanto ao filme, ele é mais ou menos tão ruim quanto eu esperava. Na verdade um pouco pior. Pra variar, o trailler mostra tantas cenas repletas de efeitos especiais incríveis, o Cristo Redentor despencando, aquilo tudo, que no filme você espera ver muito mais. E você não vê muito mais. Não percebo grandes diferenças (exceto pelos cenários das maquetes) entre as cenas de destruição desse e dos outros filmes do mesmo diretor (Roland Emmerich), como Independence Day e O dia depois de amanhã. Ondas gigantescas, rios de lava, terremotos, grandes monumentos da história da humanidade ruindo, gente desesperada morrendo, bah. Tudo muito igual.

O Dé até quis argumentar: “ah, não foi tão ruim, você até chorou”. Okey, vamos combinar, eu choro em comercial de margarina. Sempre escorria uma lágrima furtiva quando passava aquele comercial do Gelol com o slogan “não basta ser pai, tem que participar”. Eu me debulho em lágrimas em último capítulo de novela. Eu me emociono assistindo ao jornal. Passei uma semana em depressão quando vi Titanic no cinema (dá-se um desconto: eu tinha uns 15 anos e era apaixonada pelo Leo). Enfim, minhas lágrimas não são um bom parâmetro de qualidade.

Sendo assim, é claro que eu choro cada vez que vejo uma cena de um pai se despedindo de uma filha por telefone antes do mundo explodir. Quando uma mãe desesperada só pensa em salvar a vida dos filhos. Quando um casal apaixonado se olha pela última vez antes de uma tsunami avacalhar com tudo. Eu não consigo não me imaginar no lugar da personagem. É a identificação que me comove.

O filme é puro clichê (SE VOCÊ NÃO VIU AINDA E NÃO QUER SABER DETALHES DA HISTÓRIA, PARE DE LER AQUI, EMBORA EU DUVIDE QUE TENHA ALGO NO FILME QUE VOCÊ NÃO TENHA VISTO AINDA). Já começa pelo chavão do pai separado (John Cusack) tentando se reaproximar dos filhos num acampamento (alguém realmente faz isso?), e pelas faíscas de amor mal resolvido quando se encontra com a ex-mulher (Amanda Peet).

Há uma cena em que um casal (a ex do Cusack com o atual marido, Thomas McCarthy) está fazendo compras, em plena crise conjugal. O marido diz “parece que tem algo nos separando”, e o chão começa a tremer. Naquele momento eu falei: “não, eles não fizeram isso...”. Sim, eles fizeram. [IRONIA MODE: ON] O absolutamente imprevisível . A fenda se abre no chão deixando o marido e a esposa em lados opostos do cannyon que se abriu bem no meio do mercado. Uau, surpreendente. Do mesmo jeito que uma outra fenda se abre no teto da capela Sistina, separando o dedo de Deus do dedo de Adão na famosa cena da criação retratada por Michelangelo.

Algo que irrita nesses filmes é o fato de o mocinho e o pessoal que vai se salvar junto com ele fazerem coisas altamente estúpidas. Como, por exemplo, quando o personagem do Cusack deixa a família no avião e vai procurar o mapa de localização das naves salvadoras, que está em mãos do profeta maluco que mora no meio da floresta (Woody Harrelson). É ÓBVIO que ninguém numa situação dessas levaria a filhinha de sete anos, não só pelo perigo da situação, já que a porra toda está desmoronando, explodindo, entrando em erupção, mas também porque a menina ia atrasar tudo! Mas, claro, no filme o cara leva a criança junto.

Nos últimos instantes antes da lava-fogo-destruição-poeira-cósmica atingi-lo, ele procura minuciosamente pelo mapa na prateleira indicada pelo maluco. Abre o mapa do metrô, dobra de novo... Por que diabos o imbecil não cata todos os mapas e sai correndo pra conferi-los dentro do avião? Ah! E também para que o público possa apreciar todos os efeitos criados para o filme, é necessário que o protagonista passe por absolutamente todos os desastres possíveis, escapando ileso enquanto o restante dos seres vivos é varrido da face da Terra.

Ah, sim, não podemos esquecer do cara (Thomas McCarthy) que fez duas aulinhas num monomotor e, no momento de desespero, aprende a pilotar qualquer avião. E já sai fazendo manobras radicais, split, duplo looping, desviando de prédios em queda... Aí, quando já se transformou em candidato pra Esquadrilha da Fumaça, tem a chance de salvar a própria vida e da família simplesmente servindo de co-piloto, mas faz questão de ressaltar que não pode fazer isso, que não sabe pilotar, que precisa ser honesto... Alouuuuu, vai fazer charminho numa hora dessas?

O filme inteiro só consegue fazer uma única surpresa, e é uma surpresinha bem mixuruca. Os personagens passam o filme todo falando nas tais naves que foram construídas para salvar a elite do planeta, e finalmente o espectador descobre que não são naves espaciais, mas sim arcas gigantescas. Ooooohhh, tipo a arca de Noé, né, tia? É. Isso mesmo.

Aí é uma sequência de sacanagens: os caras se matam para conseguir entrar clandestinamente na arca, até que o pessoal lá dentro sofre um ataque de solidariedade e resolve abrir as portas para o povo entrar. Então o china que conseguiu o ingresso de cambista para a salvação acaba moendo as pernas, o chato do marido atual da mocinha, que só serve para atrapalhar o romance entre o casal principal, finalmente sai de cena com uma morte dolorosa. E então o cabo que os penetras usaram pra entrar fica enroscado nas engrenagens, impedindo a porta gigantesca da bagaça de fechar, e sem o fechamento da porta, os motores não ligam, e sem ligar os motores, a humanidade é extinta.

Nessa hora foi inevitável pensar: “isso que dá comprar arca made in China”.

De repente, um cara anuncia no alto-falante para o que restou da raça humana que não tem mais jeito, que todo mundo vai morrer, que não tem como chegar ao tal do cabo enroscado porque a área está toda submersa e seria uma missão suicida. Curiosamente, o povo não se desespera, não se instaura o pânico, tudo muito tranquilo.

O mocinho, ao ouvir as palavras “missão suicida”, pára pra pensar se vale a pena e tal, ignorando o fato de que, se ele não for, vai morrer do mesmo jeito, junto com o resto da galera, espatifada no Everest. Claro que nessa cena, assim como em muuuitas outras do filme, não poderia faltar um diálogo inútil, típico daqueles momentos em que NINGUÉM em sã consciência pararia para conversar.

O cara está indo salvar a arca da destruição iminente, o impacto será em poucos minutos, mas o filho pré-adolescente tem que querer ir junto, pra ajudar o pai. Em vez de o cara dizer pra mãe do menino: “segura esse moleque aí, cacete”, ele pára pra fazer aquele discurso emocionante.

[CANÇÃO EMOCIONANTE - EU CHORANDO]
“Filho, você já está me ajudando. Lembra o dia em que sua irmãzinha nasceu, e você se tornou o irmão mais velho dela? Então. Desde aquele dia você é o responsável por cuidar dela quando o papai não está por perto. Nesse momento, sua irmãzinha está se cagando de medo e precisa de você. Eu quero que você vá lá e diga algumas palavras doces para ela se acalmar, e se você fizer isso, eu fico tranquilo. Isso é tudo que seu velho pai poderia esperar de um filho num momento desses, em que o mundo está acabando, a humanidade chega ao fim, e essa voz sexy do computador anuncia que só faltam 2 minutos para o impacto fatal. Agora eu preciso tomar muito fôlego, por que ficarei sem respirar muito tempo. Embora só tenhamos 2 minutos para a porra toda explodir e afundar, essa cena vai durar ainda uns 15 minutos de intensa agonia, você vai ver. Se um dia, quando crescer, você virar protagonista de um filme-catástrofe, finalmente vai entender o estranho paradoxo do tempo. O cronômetro indica agora 30 segundos para o impacto, mas eu posso conversar com você por mais cinco minutos, e lançar olhares apaixonados para sua mãe, que, diga-se de passagem, eu nunca deixei de amar, e, olha lá, no cronômetro passou só um segundo. É incrível. Bom, é isso, meu filho, fique com Deus, se cuide, coma vegetais, estude bastante, não use drogas, cuide da sua mãe, use camisinha (não com a sua mãe, moleque pervertido), e não invente de ser escritor como seu pai, que isso não dá dinheiro”.


Enquanto isso, o povo todo da arca observa emocionado, através das câmeras estrategicamente posicionadas. Quando você pensa que ele foi, ele volta, dá um beijo na testa do guri e diz “eu te amo”.
[MÚSICA DE SUSPENSE - EU ENXUGO AS LÁGRIMAS NA MANGA. SERÁ QUE NOSSO HERÓI VAI CONSEGUIR?]

Massss, claro, apesar de todas as recomendações, evidentemente, o maldito moleque teimoso vai atrás do pai, o que dá início a um outro diálogo desnecessário (“eu disse pra você não vir, blá blá blá”, "mas, pai, eu queria ajudar, blá blá blá whyskas sachê”). Depois de meia hora o mocinho finalmente consegue desenroscar o cabo, com a ajuda do filho (ufa, ainda bem que ele foi, né?). Na volta, por óbvio, ele fica desaparecido debaixo da água durante algum tempo, pra rolar aquela expectativa na galera “será que o mocinho morreu?”, mas eis que, quando todos já perdiam as esperanças, emerge nosso herói, aplaudido de pé, o salvador da humanidade. Parece que a essas alturas todo mundo já esqueceu que foi ele mesmo que, junto com sua turminha, deixou o cabo enroscado que impediu a porta de fechar e quase matou toda a galera.

Ainda há mais uma coisa importante a observar: os “escolhidos” para sobreviver foram os chefes de estado, alguns militares que comandavam a parada, um pessoalzinho que trabalhava pra casa branca e os felizardos que compraram a passagem por um bilhão de euros por cabeça. Na última hora, resolveram abrir as portas da esperança e deixar entrar o pessoal que se acotovelava do lado de fora. Essas pessoas eram, basicamente, os chinas operários que trabalharam na construção das arcas, e outros multibilionários que, embora tivessem pago a passagem, estavam sendo deixados pra trás porque uma arca estava meio detonada. Além dessa gente, também conseguiram se salvar uns animais, obras de arte, e as duas famílias que entraram clandestinamente.

Agora, raciocinemos. Primeiro que ninguém se preocupou em levar uns médicos, engenheiros, dentistas, químicos, ou seja, a classe média toda se estrepou lá fora, não sobrando ninguém com conhecimentos práticos pra tornar a vida suportável. Com exceção do escritor pobretão estadunidense e sua família e de uma galera de operários chineses, o que restou da humanidade foi um bando de políticos, militares de alta patente e gente podre de rica, sem o mínimo de consideração pelo próximo. Delícia de mundo novo, não? Sinceramente, acho que o pessoal que morreu frito na lava vulcânica levou a melhor.

Temos ainda outros clichês, como o presidente dos Estados Unidos, o homem mais poderoso da Terra, o abnegado chefe de uma nação que decide morrer junto com ela, ser negro (Danny Glover). O geólogo (Chiwetel Ejiofor) que possibilitou a salvação dos poucos felizardos, também é negro. E termina, claro, pegando a filha do presidente (Thandie Newton), que, aliás, foi responsável pela atuação mais desinteressante do filme. A onda do politicamente correto parece ter proibido selecionar atores negros para fazer papéis que não sejam de salvadores da humanidade. Deuzulivre ver num filme um cabra safado, um ladrão, um assassino que não tenha olhos azuis. Além de tudo, o único continente do mundo que não foi destruído, sendo, inclusive, elevado pelas forças da natureza foi – adivinha? – a África.

O gorducho insensível (Oliver Platt), que desperdiça uma passagem grátis porque não se incomoda nem em salvar a própria mãe esclerosada, claro, é branco. O gordo desgraçado que só pensa em si mesmo e nos filhos gordos medonhos, e usa as pessoas em seu benefício como bem entende, é russo. Nem tinha parado pra pensar, até agora, no preconceito hollywoodiano com os gordeenhos. O indiano (Jimi Mistry) que de fato descobriu que o planeta estava fervendo por dentro feito um forno micro-ondas, além de aparecer só umas 3 vezes, sem muito destaque, morreu na tragédia, com toda sua família. Não tem um único descendente de japa no filme. Ou seja, tudo muito igual.

Por fim, você não vê a hora que o filme chegue ao fim. O roteiro se arrasta, permeado de participações relâmpago de personagens que têm poucos minutos pra tentar se despedir dos parentes e fazer uma oração antes de ir pelos ares. Longas cenas retratam a politicagem por trás dos bastidores. Quanto aos tão anunciados e esperados efeitos visuais, algumas cenas são realmente incríveis e outras, totalmente decepcionantes. E aí o filme termina assim, com o espectador vislumbrando a criação de uma nova ordem mundial, fundada exclusivamente pela aristocracia do planeta e mais alguns felizardos certamente trabalhando para os primeiros.

Resumindo: Roland Emmerich, por gentileza, quero meus 158 minutos de volta.

4 comentários:

  1. Amoooooo seus textos... O discurso do pai é o melhor! kkkkkkk

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  2. Aahh, que bom que você gosta, Mariana! Adooouro quem ama meus textos.
    Volte sempre! ;)

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  3. PQP, chorei de rir...
    Bjo!

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  4. Volto mesmo! Aliás, sou leitora assídua! Desde o Quem no Cosmos os primórdios! Não perco um texto... Seu blog está salvo nos meus Favoritos... Se naum fosse advogada, com certeza poderia ser escritora! Beijão!

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