sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Enfim, SEXta.

No final da tarde de ontem, enquanto eu me matava para terminar a bendita contestação, chegou e-mail do chefinho: "Oksana, você já finalizou o agravo retido da Sbrubles1? Quando é o prazo?". Desconsiderando o fato de que eu nem sequer me lembrava que tinha esse agravo para fazer, verifiquei no sistema que o prazo é segunda e respondi: "Ainda não, entrego amanhã".

Não contente, ele responde: "Ok. Conseguiu falar com o Charles (assunto - Chinalá2)?". Desconsiderando o fato de que eu havia desistido de tentar falar com tal pessonha desagradável, rapidamente telefonei e recebi mais uma desculpa esfarrapada da secretária, e respondi: "Não consegui. Liguei hoje e disseram que ele não estava e que é pra ligar amanhã".

E assim eu fico pensando cá com minhas teclas (que pensar com botões é tão last week) que talvez o chefinho tenha algum trauma de infância ou qualquer tipo de desvio psicológico que faz com que ele seja uma dessas pessoas que nunca estão satisfeitas com nada! Nossa, essa frase sem nenhuma vírgula exige um super fôlego pra ler em voz alta (fumantes, não tentem)!

Então, estamos aqui, em mais uma bela SEXta-feira de sol, calor, céu azul, crateras espalhadas pela cidade abertas pelo temporal de ontem à noite... Por falar em ontem à noite, claro que eu e meu amado namorido estivemos em nossa casita, fazendo todo um trabalho braçal. Demos a primeira demão de tinta no quarto 1 (é o de casal, mas acho divertido chamar os quartos pelos números), a terceira e última no teto do corredor, a segunda e última na parede da sala que vai receber a textura, e colocamos massa corrida nos vãos dos caixilhos das portas. Saímos de lá meia noite e meia. Aí até chegar em casa, tomar banho-dormir (nem tive forças para comer), já viu, né?

Além de tudo, tivemos que desviar um trecho da rua que estava alagado, onde alguns carros anfíbios se encontravam cobertos de água até acima das calotas. Então precisamos passar por cima do canteiro central e seguir pela faixa exclusiva para os ônibus. A Flecha Prateada3 não teve dificuldades, mas um pobre caminhão atolou e ficou por ali mesmo.

Esse negócio de comprar imóvel é um grande aprendizado, sabe? Se um dia formos comprar outra casa (e não construir, como pretendemos), certamente estaremos atentos a detalhes que nunca percebemos antes, como, por exemplo, se a casa foi construída sobre um antigo cemitério indígena o rejunte dos azulejos foi bem feito, se os caixilhos das portas foram bem colocados, se o teto foi bem pintado, se a água no box escorre para o ralo ou para o lado oposto, se a obra foi feita por seres humanos ou por ornintorrincos estrábicos, essas coisas.

O papo está ótimo, mas preciso começar finalizar o agravo retido antes que o chefinho apareça com mais 18 mil tarefas. Tenho também que enviar conteúdo para o blog Voluntários em Ação, do qual sou colaboradora (não escrevo, só envio notícias coletadas na internê). E ainda fazer as lembrancinhas para meu pequeno chá de panela. Além, é claro, de dar um jeito de extrair a massa corrida debaixo das minhas zunhas, e fazer aquele esforço sobre-humano para manter as pálpebras abertas.

Torçam por minha sobrevivência.

Notas:
1) O nome da cliente foi alterado para proteger sua identidade e eu não ser demitida
2) O nome da cliente foi alterado para proteger sua identidade e eu não ser demitida.
3) Celta do namorido.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dois palitos

Sempre que meu chefinho me passa mais algum selviço e eu faço aquela cara de oh, man, ele se sai com essa: "isso aí você faz em dois palitos". Bem que eu queria saber (e aposto que nem ele sabe) a origem de tal expressão, mas o fato é que hoje estou mesmo é precisando de dois palitos para manter os zolhinhos abertos. Zentsi, que soninho!

Ocorre que eu e meu namorido compramos uma casa. Uma casinha linda, de três quartos, com quintal, árvore, todo um sonho. Aí aquele pequeno projeto humilde foi tomando proporções inimagináveis, tcheepo assim, ahm, já que a casa é NOSSA, não uma coisa assim toda alugada, vamos investir, néam? E aí é investimento que não se acaba mais.

Primeiro foi a cozinha e o closet planejados. Escolhidos depois de nada menos que 15 projetos e respectivos orçamentos. Sim, eu disse QUINZE ORÇAMENTOS. Se você já foi alguma vez a uma loja de móveis planejados e assistiu todo faceiro ao processo de confecção do projeto - arrasta pra lá, puxa pra cá, estica aqui, encolhe acolá - no programinha de computador (Promob), você não imagina a gastura que é ver esse negócio acontecer pela quadrigésima milésima nona vez. Dá uma vontade de chacoalhar o cerumano ali e ver se ele acelera a bagaça porque já é a oitava manhã de sábado que você deixa de dormir pra ficar vendo a cozinha virtual acontecer.

Mas eu nem imaginava que aquilo era só o começo. Depois veio a reforma. Sim, porque a casa é nova, mas o construtor parece ter contratado a mão de obra de chimpanzés cegos e mancos. Assim, embora o porcelanato usado no chão seja bonito, não dava pra gente se conformar com aquele rejunte da grossura de um tornozelo, e com o piso todo desnivelado. Simplesmente não ia combinar com a beleza dos móveis planejados. Sentiu a armadilha?

Uma coisa levou à outra, e de repente estávamos decididos a colocar piso laminado e uma cerâmica nova na cozinha. Para isso, nosso pedreiro arrancou os rodapés de porcelanato, que serão substituídos pelos de madeira. Com essa manobra inteligente, obrigamo-nos a repintar a casa toda por dentro - note que a pintura era novinha da silva, mas arrancar os rodapés obviamente deixou a parte inferior das nossas paredes parecendo cafofo de miss laje.

Não vou nem tocar em outros detalhes como a área de serviço que cobrimos, o piso da garagem que era de brita e hoje está cimentado, e tantas outras coisas que às vezes nos fazem cogitar se nosso pedreiro vai acabar morando lá e a gente não. Importante agora é o quesito pintura.

Todo mundo que já montou casa e/ou fez uma reforma sabe que qualquer servicinho que você pede custa um rim ou órgão de maior importância vital. Como arranjar um profissional que preste é coisa da maior dificuldade, a gente até paga com a consciência leve o nosso pedreiro, o Cliverson (queria o quê? um Pedro de Alcântara Machado?), porque o cara é firmeza mesmo. De absoluta confiança, faz um trabalho caprichado, preciso, e ainda limpa tudo antes de ir embora. Difícil acreditar, né? Um pedreiro limpinho. Pois ele passa esponja úmida pra tirar resíduos de rejunte, argamassa, cimento ou uaréver, varre o pó, enfim, o cara é dez. E o preço que ele cobra é o  mesmo praticado por aí, fizemos outros orçamentos também. E olha como eu consegui fugir do assunto de novo.

Bom, desde que percebemos que a pintura seria necessária, eu quis encarar a tarefa e economizar uns tostões. Mas o Dé achava que seria muito complicado e talz, e a minha sogra ficava o tempo todo botando uma pilha que não valia a pena a gente cansar tanto, que era melhor pagar pra alguém fazer, que coitadinhas das crianças (eu e ele). Mesmo assim, o Dé concordou comigo e começamos o trabalho.

Como a parede em que ficará o closet é uma parede externa e num quarto que não bate tanto sol, resolvemos aplicar um impermeabilizante nesse quarto, batizado de quarto 2. Como o quarto 3 fica do mesmo lado da casa e um dia será o quarto do bebê, resolvemos impermeabilizá-lo também. E, claro, já que estávamos com a mão no vedapren parede mesmo, já garantimos a brancura eterna do teto do banheiro. Xô, mofo! Fora, bolor! Mofo e bolor não são duas palavras horrorosas? Fronha também, né? Ops, foco no assunto, Oksana, foco.

Ao final desse sábado fatídico, tínhamos dado somente a primeira das três demãos necessárias do impermeabilizante, que vem antes da tinta (pelo menos duas demãos). E já não conseguíamos erguer os braços acima da cabeça e a cada passo parecia que o fêmur ia se descolar da bacia [EXAGERO MODE: ON]. O Dé tentava não parecer muito pessimista, mas eventualmente deixava escapar um "será que vamos conseguir?", "será que vamos sobreviver?". Okey, okey, acabei me rendendo.

No domingo, então, liguei para um pintor indicado por uma amiga da minha mãe, que se disse impressionada com o capricho e com o preço baixo que ele cobrou. Lá foi o Junior fazer orçamento para nozes. O cara tem quase dois metros de altura, imagino que deve ser uma vantagem no serviço, nem precisa de escada ou do cabo extensor para o rolo de pintura. Dá pra pintar o teto sem esticar o braço. Expliquei pra ele o serviço, que já compramos a tinta e todo o material necessário.

Ele passeou pela casa, sentiu a textura da parede nas mãos calejadas. Disse que pintura nova é uma beleza, que não precisa lixar nada nem usar massa corrida, que está acostumado a pintar cada parede que é só buraco, uma tristeza. A nossa expectativa por um preço muito baixo era crescente. Concluiu dizendo que terminaria o serviço em cerca de cinco dias. E queria R$ 400,00, que poderíamos pagar em duas vezes: uma no 2º dia de pintura e outra no 5º, quando ele terminasse. Sim, porque meu salário eu também recebo uma vez a cada 3 dias. Você não?

Eu e o Dé ficamos naquela de um tentar decifrar o que o outro estava pensando, mas a telepatia estava desligada ou fora da área de serviço. Eu disse ao Junior Gigante que iríamos pensar e, se fosse o caso, voltaríamos a telefonar pra ele.

Enfim, sós, o Dé me confessou que estava se sentindo mais Michelangelo do que nunca, super a fim de jogar umas tintas naquelas paredes. E o Gigante que vá tapar buraco de algum teto horroroso por aí. É que R$ 400,00 são uma verdadeira fortuna pra quem ainda precisa colocar cortinas, mobiliar o resto da casa, comprar utensílios, eletros, terminar de pagar o pedreiro, além das astronômicas faturas de cartão de crédito em que parcelamos o máximo possível as compras de material de construção, isso tudo sem contar, é claro, o financiamento dos móveis planejados e da própria casa. Se sobrar algum, é capaz até de a gente se alimentar. E quem sabe um dia eu possa voltar a ir ao salão fazer minhas unhas (dinheiro jogado fora agora que elas estão todas destruídas e encardidas de impermeabilizante).

Todo esse relato emocionante foi só pra ver se ganho uma casa prontinha e mobiliada no Construindo um Sonho do Gugu explicar a razão de eu estar parecendo um zumbi sorumbático me arrastando pelo escritório a cada 15 minutos em busca de mais 250ml de café. É porque todos os dias eu e o Dé estamos saindo do trabalho e indo direto para o nosso 3º turno, quando colocamos roupinhas surradas e encarnamos os pintores felizes daquele que será em breve nosso lar, doce lar. Aí a gente fica até onze da noite pintando (coisa que quase não cansa o corpinho véio), depois vai pra casa tomar banho-comer-dormir e acorda 6h da manhã pra trabalhar.

Não, não vestimos macacões jeans (péssimo), não pintamos a cara um do outro e terminamos nos amando em meio às tintas. A coisa não é hollywoodiana assim. É certo que brotam inesperadas declarações de amor entre uma pincelada e outra. Acho que é pela felicidade de ver a parceria ilimitada, um amor que resiste às intempéries, que encara o que poderia ser visto como dificuldade apenas como mais um passo do caminho. Sem perder a ternura e o bom humor.

Ai, Senhor, agora dai-me forças pra fazer essa contestação, pra depois voltar aos pincéis e rolos de pintura. Forças e dois palitos, por favor!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

G-zus, quequé ilson?

Não sei qual pode ser a causa dos sintomas, mas estou disposta a fazer um coquetel de neosa, anti-histamínico, maracugina, AAS infantil, atroveran, mentos e coca light pra ver se passa.

Talvez seja a TPM ou algo estranho que eu comi. Sei lá, mas parece que alguma coisa aqui dentro fez soar o gongo do instinto maternal. Hoje, na hora do almoço, a coisa foi crítica. Passando em frente à banca de revistas, li rapidamente na capa de uma revista de fofocas a manchete: "Thiago Lacerda e Vanessa Lóes serão pais de uma menina". Okey, sô uat? Pobrema, minha gente, foi que meus zolhos encheram-se de água instantaneamente e eu segui meu rumo querendo crer que tivesse sido um cisco.

Uótafok, man!

Mas aí que navegando por uns blogs bons e lendo textos antigos (ai, meu chefe me mata),  li no maravilhoso (e infelizmente encerrado) Garotas que Dizem Ni esse trecho de um dos textos de despedida:

"E a Flá conheceu (e não só isso) uma criaturinha muito fofa e amada, no meio de toda essa história. Primeiro, pelo teste positivo. Depois, pelo ultrassom. Até que, na tarde do dia 30 de janeiro de 2005, Vivi e eu conhecemos em pessoa aquela coisinha de touca, pelo vidro do hospital. E o nascimento da Sassá tem sido uma alegria para todos nós."

Vou ter que confessar que a simples menção ao teste positivo já me deu de novo aquele nó na garganta e os olhos marejaram, toda uma emoção, sabe?

E toda vez que eu e o Dé, por alguma razão, começamos a divagar acerca de nossos futuros filhotes, imaginando o quanto os avós vão babar na criança (eca), e o Dé torce por uma menininha com meu senso de humor (perdoa, ó Pai, pois ele não sabe o que pede), e eu termino sonhando à noite que estou embalando uma coisinha fofa em meus braços, claro que me desperta todo um siricotico maternal.

Bom, enquanto essa aflição não passa, fico aqui entoando o mantra é-fofinho-mas-faz-cocô e tentando me convencer de que fraldas descartáveis, roupinhas, produtos de higiene, móveis para o quarto, plano de saúde e todos os demais apetrechos necessários para uma infância saudável custam tão caro que eu teria que vender o corpo pra pagar, e de filho da puta o mundo já tá cheio.


Pronto, falei.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Menina moça

Já estava prontinha pra sair para o trabalho. Ao colocar o celular na bolsa, ele começou a tocar. Número estranho, prefixo 81. Atendi e uma voz feminina pronunciou umas palavras que não entendi.

- Como? - perguntei.

Ela repetiu e lá pela 4ª vez compreendi a frase, apesar da voz de sono e do sotaque tão diferente do meu:

- É de residência de Ivan?

- Não, senhora.

- Ah, então você me desculpe, é que aqui na lista telefônica esse número tá como de Ivan, instrutor de natação, ali do lado do clube tal, e eu pensei que fosse a esposa de Ivan.

- Não, senhora, esse número é um celular de Curitiba.

- Então você saiba que mora numa cidade muito linda, viu? Já passei por aí uma vez. E eu falo aqui de Pernambuco. Você já ouviu falar de uma cidadezinha pernambucana que tem a maior festa de São João do mundo, chamada Caruaru? Pois é aqui que eu vivo, numa cidade pequena porém muito linda, viu? E eu preciso é falar com Ivan, que é instrutor de natação da terceira idade, sabe? Porque eu tenho 74 anos, mas não parece, não, viu? O povo me pergunta se eu tenho 64, eu digo "que isso? Tenho 58 só de casada", viu? Em todo caso eu agora só digo que sou menina moça. Então você me desculpe, viu?

- Imagina, não tem problema, não! Um bom dia pra senhora, tá?

- E pra você também, viu?

E foi assim que uma menina moça pernambucana de 74 anos me fez sair de casa já achando graça da vida.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A not so desperate housewife



Entre as minhas amigas o tema ainda é tabu. Se alguma resolve trazer o assunto à tona, rapidamente é marginalizada pelas demais ou sofre ameaças: “se nossas conversas de agora em diante forem sobre esse tipo de coisa, eu não apareço mais”.

Eu sofro. Preciso manter oculta essa minha paixão. Temo não ser compreendida e até ser rejeitada pelas pessoas que amo. Mas, enfim, preciso confessar: estou extremamente ansiosa e excitada com o fato de que, em breve, serei... Uma dona de casa! Calma, gente, não estou falando de abandonar o trabalho remunerado, colocar todas as contas nas mãos do namorido, começar a preencher formulários como “do lar” e passar os dias exclusivamente cozinhando, limpando, lavando, passando, costurando e confeitando.

Falo, sim, de um resgate de algumas coisas boas do passado que foram execradas pelo espírito feminista. Em defesa da igualdade de direitos e da proteção da mulher, foram feitas campanhas e passeatas, queimados sutiãs e impostos novos padrões de comportamento.

As mulheres saíram de casa, passaram a competir no mercado de trabalho e dedicar cada vez menos tempo às tarefas domésticas – processo que foi bastante facilitado pela invenção de abençoados eletrodomésticos. Até mesmo a moda ditava um novo jeito de ser, masculinizando as formas femininas com blazers, calças compridas, cortes retos, ombreiras gigantescas, coletes e até gravatas, com a intenção de diminuir as diferenças entre os gêneros e dar mais credibilidade às mulheres no ambiente profissional.

Todo esse processo foi necessário e, graças a ele, eu e a maior parte das mulheres da minha idade não tivemos que sofrer discriminações que muitas de nossas mães enfrentaram. Minha mãe conta o quanto era comum, e pior, até considerado normal os chefes darem em cima das funcionárias, e que era preciso muita habilidade para se livrar das investidas e ainda conquistar espaço e o respeito dos superiores – e mesmo dos colegas.

Evidente que ainda existem homens porcos ocupando cargos de chefia, mas hoje esse tipo de conduta não é mais aceita pela sociedade e as vítimas de comportamentos abusivos têm como se defender. Conquistas como essa se devem àquelas mulheres corajosas que vestiram calças e foram à luta. É certo que muitas mulheres no mundo todo ainda enfrentam condições de vida inaceitáveis e que há muito trabalho a ser feito para assegurar a proteção de seus direitos, mas é admirável o caminho que já percorremos.

Hoje podemos usar saias sem sermos vistas como seres frágeis, indefesos e menos capazes. Chegamos a um momento em que é possível um resgate da feminilidade. Não precisamos necessariamente ser agressivas para garantir nosso lugar. Podemos fazer uso de nossa sensibilidade, do nosso senso estético, da nossa capacidade de expressão e até mesmo – por que não? – da nossa intuição.

A grande vantagem de não precisar empenhar todos os esforços em provar alguma coisa é uma vida mais leve e divertida, é a coragem de gostar (e admitir que gosta) de coisas não tão sérias, profundas, profissionais, corporativas ou filosóficas. A gente se permite apreciar pequenos prazeres da vida que tornam bem mais fácil encarar os desafios do dia a dia.

Para minha sorte, não estou sozinha. A cada dia descubro mais mulheres inteligentes, batalhadoras e bem sucedidas que adoram coisas malucas como arrumar a casa e cozinhar. E antes de continuar, cabe aqui uma ressalva: não acho, de jeito nenhum, que essas coisas sejam atribuições ou mesmo prazeres exclusivamente femininos. A questão é que já faz muito tempo que “um homem que sabe cozinhar” se tornou uma coisa linda de se ver, objeto de desejo, motivo de aplausos e elogios. Enquanto entre as mulheres parece ser feio admitir que sabe fazer qualquer coisa mais complexa – e saborosa – do que um macarrão instantâneo.

Para mim, é uma verdadeira arte saber transformar a casa num lugar delicioso para voltar após um dia de trabalho árduo. Conhecer segredinhos modernos ou do tempo da vovó para deixar tudo arrumadinho, limpinho e cheiroso. Saber preparar uma refeição que seja mais do que um simples alimento, mas um motivo de alegria.

Na minha família sempre convivi com pessoas que demonstram afeto através da comida. Experimente sair da casa de uma das minhas tias sem comer (e muito): ofensa imperdoável. Em casa, ao chegar varada de fome, muitas vezes abri a geladeira e conclui: “putz, não tem nada”. E minha mãe vai lá e transforma o “nada” em uma deliciosa refeição preparada em questão de minutos. Saladas, omeletes, risotos, tortas salgadas e muitas outras delícias. Com ela aprendi que criatividade é o melhor tempero.

Tenho ainda muitas outras musas inspiradoras, que apresento com muita honra:

A Chris, autora do site/blog/livro “Casa da Chris”, é jornalista, tem uma estranha obsessão por eletrodomésticos, adora ponto cruz e dá dicas maravilhosas para casa, além de traduzir perfeitamente os dilemas enfrentados quando mulheres modernas resolvem assumir seu lado Martha Stewart. Eu tenho o livro e adoro, além de ser frequentadora do site há anos. O seu Almanaque das Festas Instantâneas também está na mira pra fazer parte da minha coleção.

A Mari Mari, do Brincando de Casinha, também é jornalista, além de criadora desse blog maravilhoso, que trata de uma forma extremamente divertida, leve e bem-humorada de questões da casa: decoração, obras, reformas, enfim, várias dicas sensacionais. Eu me identifico tanto com a forma como ela escreve que, embora ela não saiba que eu existo, pra mim parece uma amiga. A dupla de posts “Os piores erros da minha reforma – parte 1 e parte 2 salvaram minha vida. Desde então, “Mari Mari adverte...” virou jargão entre mim e o Dé (pequeno parêntese de mulher apaixonada: acho tão lindinho que o Dé presta atenção nas coisas que eu gosto e que eu falo e até lê os blogs que eu indico... ai ai... Pronto, passou).

A Faby, a Katita, a Clau e a Grasiele são as Rainhas do Lar. As duas primeiras são responsáveis pela minha parte favorita: as receitas deliciosas, escritas de um jeito que parece uma amiga explicando pelo telefone. A Clau dá dicas de harmonizações de vinhos e pratos, e a Grasiele ensina tudo sobre jardim, flores, plantinhas mil. Sempre me perco no índice de receitas do site, que ainda dá dicas fofas de acessórios e coisinhas especiais pra cuidar do reino, digo, do lar. Tem explicações fantásticas desde como escolher os alimentos no mercado e outros segredinhos que você não encontra nos livros de culinária comuns. Vale a pena também ler os comentários aos posts, sempre acabam rendendo alguma dica extra, uma sugestão de uma leitora, recomendações de quem errou ou acertou no preparo, ou uma pergunta de outra perdida igual você, cuja resposta dada pela Rainha esclarece algum termo estranho de que você nunca tinha ouvido falar (tipo "clarificar a manteiga"). Ah, as Rainhas também têm um livro, o Pequeno Livro de Cozinha: Guia para Toda Hora, que eu não li ainda, mas certamente será uma das minhas próximas aquisições. Detalhe: o Dé também lê o Rainhas (já executamos juntos algumas receitas), comenta com amigos do trabalho as coisas que aprende no site e não liga para as piadinhas.

Donna Smallin é a autora de um livro cujo título não vai fazer você parecer a mais culta nem a mais descolada da galera, mas pode mudar a sua vida: “Casa limpa e arrumada – organize-se para cuidar da limpeza sem deixar de viver”. Sério mesmo: é o máximo! Isso sim que é auto-ajuda, o resto é bobagem! Donna dá orientações sobre como limpar cada cômodo da casa, como se organizar, tem dicas para pessoas alérgicas, para quem tem animais de estimação, para quem tem crianças, ensina a preparar seus próprios produtos de limpeza (mais econômicos e menos agressivos ao meio-ambiente) e muito mais. O melhor de tudo, em minha opinião, é mostrar que é possível ter uma casa limpa, arrumada, gostosa de morar, sem com isso ter que abrir mão de todas as outras coisas boas da vida! Eu super recomendo!

A mestra Martha Stewart é apresentadora de televisão e empresária americana, considerada autoridade em assuntos referentes a casa, decoração, culinária e artesanato. Faz qualquer mulher normal se sentir uma absoluta incompetente por deixar suas plantinhas morrerem ressecadas (ou afogadas), por não preparar um banquete ao chegar do trabalho antes de passar roupas e organizá-las no armário por ordem de cores em degradê em cabides que você mesma fez, por não viver num reino encantado cheirando a lavanda e terminar a noite fazendo artesanato para decorar a casa. É tipo uma Bree Van De Kamp da vida real. Mas vale a pena aproveitar as dicas, sem sucumbir a muitas neuras.

Bem, essas são algumas das minhas fontes de inspiração, além das revistas de arquitetura e decoração (outra tara que eu tenho). Se nenhuma delas fizer o seu estilo, não tem problema. Você pode buscar o seu próprio jeito de cuidar do seu cantinho. O importante é deixar livre a dona (ou o dono) de casa que existe dentro do seu ser! Afinal, existe no mínimo uma pessoa amada na sua casa que merece esse carinho: você!

Beijinhos

Ps.: juro que não ganhei nadica de nada pra fazer propaganda das divas acima, ok?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Empatia

A palavra empatia deriva do termo grego “empátheia”, que significa “entrar no sentimento”. Segundo a psicanálise, empatia é o estado de espírito em que uma pessoa se identifica com outra, presumindo sentir o que esta está sentindo. À primeira vista, empatia pode parecer uma característica desenvolvida somente por algumas pessoas, muito provavelmente psicoterapeutas. Ou, ainda, que é um dom inato.


Para mim, é simplesmente um exercício que exige aprimoramento constante. Um mecanismo pouco explorado que muito pode auxiliar a compreender situações diversas daquela em que vivemos.

Que tal experimentar através de um pequeno exercício de imaginação?

Imagine então que você é uma menina que acaba de nascer. O ano é 1880. O lugar é a cidade de Tuscumbia, no Alabama, EUA. Para ajudar você a se ambientar, pense que Thomas Edson há pouco tempo inventou o primeiro modelo viável de lâmpada elétrica. Ou seja, ainda vai levar um tempinho para a novidade chegar a todas as residências. O avanço da industrialização é a principal marca do século, o que não impede que a maior parte da população ocidental continue vivendo da agricultura. Coisas básicas como a geladeira doméstica, a televisão e até mesmo o rádio ainda não foram inventadas.

Sua mãe se dedica com empenho ao papel reservado às mulheres de seu tempo: mãe e esposa, guardiã da moralidade, senhora de um lar que é um refúgio de paz e tranqüilidade. Seu pai é um cidadão influente, editor do jornal da cidade.

Aos dezoito meses de idade, você fica doente. Os médicos diagnosticam uma “febre cerebral”. Se fosse 2009, qualquer médico de postinho perceberia que é uma simples escarlatina, facilmente curada com penicilina ou outros antibióticos. O problema é estamos no fim do século XIX, e a penicilina só será descoberta daqui a quase quarenta anos. Que azar, hein?

A infecção deixa graves sequelas: você ainda é um bebê quando perde completamente a visão e a audição. Assim, durante os primeiros anos da sua vida, você vive isolada num mundo de silêncio, escuridão e solidão.

Limitada ao sentido do tato, você conhece muito poucas coisas. As pessoas à sua volta não sabem como se comunicar com você.

Agora você tem seis anos de idade, e uma nova pessoa adentra seu pequeno e restrito universo: a professora Anne Sullivan, da Escola Perkins para Cegos. Seu pai a contratou para cuidar de você, por indicação de Alexander Graham Bell, que ficou famoso ao introduzir o sistema de linguagem gestual criado por seu pai, Sr. Alexander Melville Bell, numa grande escola para surdos.

Com as pontas dos dedos, você conhece o rosto dessa moça de 21 anos, que passa a viver com você. Sua nova amiga ficou cega quando criança, e recuperou a visão aos 15 anos de idade, após sucessivas cirurgias. Por isso, ela deve entender um pouco da sua solidão. Mas você não sabe disso ainda.

Anne aceita o desafio de tentar ensinar você a se comunicar, e começa ensinando as letras do alfabeto manual. Você logo aprende a repetir os movimentos, mas não entende a relação entre palavras e objetos. Como perdeu os sentidos muito cedo, você não tinha ainda desenvolvido a capacidade de compreender que palavras significam coisas.

Um dia, no quintal, bombeando água do poço, Anne mergulha sua mão na água fria e, lentamente, soletra a palavra em sua outra mão. Repete o gesto, agora mais rápido. Subitamente, os sinais atingem sua consciência, agora com um significado. Você compreende que aquela seqüência de gestos representa o líquido que sente escorrer entre os dedos. Você toca a terra e a professora soletra a palavra correspondente em sua mão. Ainda hoje, você vai aprender mais de trinta palavras, relacionando objetos a suas representações gestuais. Parabéns! Eu não me lembro quando foi a última vez que aprendi mais de trinta coisas diferentes num único dia.

A partir daí, você aprende rapidamente os alfabetos braille e manual, conseguindo, finalmente, comunicar-se com o mundo, adquirir conhecimento, transmitir sentimentos. Aos dez anos, você faz um pedido a sua professora: quer aprender a falar.

Devo confessar que, para mim, isso parece um desafio quase insuperável. Como reproduzir sons que você não é capaz de ouvir, através de movimentos que você não pode ver? Mas você nunca ouviu ninguém dizer que é impossível, e é provável que esse seja o segredo do seu sucesso.

Caro leitor, nas linhas acima você teve a chance de tentar se imaginar no lugar de Hellen Keller. Claro que o exercício foi superficial. É muito provável que a plenitude dos seus sentidos o impeça de compreender como seria a vida se eles não existissem.

Pensando desse jeito, é possível concluir que eu e você, que enxergamos e ouvimos perfeitamente, temos uma compreensão limitada do mundo.

Hellen Keller, por sua vez, não aceitou os limites que a natureza lhe impôs. Conduzida por Anne Sullivan, Hellen teve aulas com Sarah Fuller, Diretora da Escola de Surdos Horace Mann.

“Os poucos sons que eu então produzia eram ruídos inexpressivos, quase sempre roucos, pelo esforço que empregava para obtê-los. Pondo minha mão em seu rosto, para que eu sentisse a vibração de sua voz, Miss Fuller ia repetindo vagarosamente e muito claro, o som ‘ahm’, enquanto Miss Sullivan soletrava a palavra ‘ahm’ na minha mão. Eu ia imitando como podia, conseguindo, ao fim de algum tempo, articular o som a contento da mestra. Ao final de minha décima primeira lição, fiz uma surpresa para Annie. Puxei-a pelo braço, coloquei a posição da língua e disse claramente: ‘EU NÃO SOU MAIS MUDA’” (Hellen Keller).

Nos anos que seguiram, Hellen aprimorou não somente sua capacidade de ler, escrever e falar, mas também se destacou no estudo das disciplinas do currículo regular. Não satisfeita, graduou-se bacharel em Filosofia pela Universidade Radcliffe, sempre orientada e assistida por Anne, que continuou com a aluna e amiga durante toda sua vida. Estudou alemão, francês e latim. Escreveu uma série de livros, recebeu diversos prêmios, visitou vários países, conheceu presidentes e personalidades importantes do mundo todo. Está se sentindo um pouco estúpido? É, eu também.

Para nos auxiliar no exercício da empatia, sugiro a leitura de um texto de Hellen, em que ela faz o caminho inverso: imagina o que faria se pudesse ver por apenas três dias. É a pecinha que faltava para eu terminar de me arrepender por todas as vezes que reclamei à toa na vida.

A vida de Hellen Keller me inspira. Para mim, é mais do que a história de alguém que superou dificuldades e realizou feitos que ninguém poderia esperar. É um alerta para que a gente aprenda a distinguir deficiências de simples diferenças. Pra que a gente lembre que não há limitação que não possa ser superada com um tanto de esforço e criatividade. Pra que a gente entenda que as imperfeições não são mais do que características que tornam cada ser humano único. E que um mundo feito de seres idênticos seria totalmente sem graça.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

inspire-se

não é só para compor uma canção ou escrever um texto que a inspiração parece vital. é também para fazer algo diferente no próximo final de semana. ler um livro em vez de assistir à novela essa noite. visitar um lugar inédito. conversar com um desconhecido. desejar bom dia no elevador. manter o bom humor nos dias cinzentos. experimentar uma comida de que nunca tinha ouvido falar. telefonar para a tia. suportar um trabalho difícil. estudar. buscar alternativas para a falta de grana. fazer uma coisa que nunca fez antes. aprender outra língua. descobrir o que é html. ouvir um estilo de música a que não se está habituado. entender como uma coisa funciona. ir ao médico ou ao dentista pra dar fim àquela dorzinha que incomoda há tanto tempo. escolher a roupa pra ir trabalhar. praticar um exercício. corrigir velhos vícios. abraçar uma causa. adotar hábitos saudáveis. começar um blog novo.

a inspiração é cheia de caprichos, só aparece quando quer. a uns, visita com frequência. outros parecem nunca tê-la conhecido. e ela anda sempre flertando com o interesse. por isso é tão difícil a bendita surgir quando somos obrigados a encarar uma tarefa que não nos interessa.

eu passei um tempo pensando que a inspiração havia me abandonado de vez. não me ocorria a forma como eu a teria ofendido, mas a separação soava definitiva. até que despertei.

percebi que ela me rondava o tempo todo, sem conseguir tocar meu rosto com seus longos cílios. por algum motivo eu havia me convencido de que o espaço que me cabia era diminuto e de que eu deveria empenhar meus esforços no objetivo único de me adaptar.

a capacidade de adaptação é imprescindível: graças a ela o ser humano domina o planeta e os dinossauros não passam de fósseis. mas não devemos permitir que nada tolha nosso potencial. e não há no mundo alguém mais capacitado a impedir uma pessoa de alcançar o seu máximo do que ela mesma.

então eu me desprendi dos grilhões que me separavam da realização dos meus sonhos. porque, veja bem, eu não sou simplesmente o conjunto das características e definições que me são atribuídas. mulher, filha, amiga, advogada, companheira, namorada, esposa, irmã, sobrinha, empregada, colega, madrinha, conhecida, magra, branca, divertida, pisciana. um aglomerado de termos não pode me impor limites.

frases como "é tarde demais", "é muito difícil" e, principalmente, "você não vai conseguir" não fazem o menor sentido. sejam elas ditas por mim mesma ou por qualquer outro ser vivente.

hellen keller disse que jamais se deve consentir em rastejar quando se sente um impulso de voar. voemos!

se você não sabe quem é hellen keller, não se preocupe. o próximo post será sobre ela.

seja bem-vindo!