terça-feira, 16 de novembro de 2010

ATENÇÃO: INTOLERÂNCIA NÃO SERÁ TOLERADA!

A resolução 51/95 da UNESCO instituiu o Dia Internacional da Tolerância, celebrado no dia 16 de novembro. A data tem o objetivo de propagar o ideal de incentivo à convivência pacífica entre pessoas de diferentes culturas, povos e crenças. 

O que me chama atenção é que, veja bem, não é o Dia Internacional do Amor ao Próximo. Não é o Dia Internacional da Amizade entre Pessoas de Opiniões Contrárias. Não é nem sequer o Dia Internacional do Respeito.

Ninguém está exigindo que sejamos pessoas de bom coração, dispostas a amar ao próximo como a nós mesmos. Não se espera que sigamos ao pé da letra as palavras de Voltaire e lutemos até a morte pelo direito alheio de dizer palavras com as quais não concordamos. Não é necessário sequer que reconheçamos publicamente que somos todos iguais e que temos os mesmos direitos. Também não se trata de aceitar comportamentos abusivos ou ilícitos, nem tampouco excessos que invadam a esfera particular dos direitos de cada um.

A tolerância que se espera é a simples aceitação, é a permissão do livre exercício de crenças, da expressão de pensamentos e opiniões. É admitir que o diferente existe e tem o direito de existir. É conter o impulso de reagir com violência ao que nos desagrada. É dizer não aos pré-conceitos e pré-julgamentos que nos impedem de conhecer a verdadeira natureza das coisas e das pessoas. É abandonar o medo que sentimos diante do desconhecido e que nos conduz à intolerância. 

É tão difícil assim? Não deveria. :(


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um vício

Os sites de compras coletivas não são exatamente uma novidade. Mas caso você esteja retornando de férias passadas no satélite natural da Terra e nunca tenha ouvido falar nisso, explico: são sites que mantêm parcerias com fornecedores de produtos e serviços, para ofertá-los à venda, por tempo limitado, a um número mínimo pré-determinado de consumidores, por um preço bem mais baixo que o de mercado.

Daí o conceito de compra coletiva: caso o número mínimo de compradores não seja atingido, a oferta é cancelada e o dinheiro de quem comprou é devolvido. A oferta adquirida é válida por um tempo determinado no voucher. O objetivo principal dos fornecedores é o de promover a publicidade de seu estabelecimento, já que o retorno financeiro muitas vezes não cobre o seu custo. Já o objetivo dos sites de compras coletivas é a comissão generosa que recebem dos fornecedores. E o dos consumidores, claro, é comprar as coisas bem baratinhas.

A minha história com os sites de compras coletivas começou quando minha amiga Tati enviou o convite para me inscrever no Peixe Urbano. De cara comprei uma oferta fantástica: três meses de assinatura na Blockbuster, com direito a locar um número ilimitado de DVDs, sendo três de cada vez, sem prazo para devolução, entregues e buscados no meu endereço, pelo preço de R$ 3,00. Não, não era R$ 3,00 por DVD, ou por entrega, esse era o preço para os três meses. Sensacional, não?

Depois eu descobri o Clube do Desconto, o Oferta Única, o Groupon (Clube Urbano), o Clickon, o CityBest, o Curitibando, o Abuze, o Imperdível, o Acesso Zero, o Etiqueta Vermelha e outros (aqui tem uma lista enorme de sites de diversas cidades)... Só o Peixe Urbano já me levou a restaurantes, clínicas de estética, massagistas, depilação a laser, bares, lojas, teatros, uma expedição de bicicleta em Morretes, um passeio de trem, um workshop de trapézio voador numa escola de circo em Mandirituba... Um total de 27 cupons adquiridos em cerca de três meses. Tudo por preços irresistíveis. Nos outros sites comprei mini-álbuns de fotografia, dois meses de aulas de pilates com equipamentos, três meses de dança do ventre, mais almoços, óculos de sol, outra assinatura de entrega de DVDs em casa, muitas massagens relaxantes, duas escovas progressivas, um day spa, revelação de fotografias digitais, dois designs de sobrancelha, escova e hidratação capilar, mais sessões de depilação a laser, peeling de diamante, limpeza de pele, nutrição facial, ingressos para stand-up comedy, drenagem linfática, massagem modeladora, cellutec, enfim, coisas que eu ainda nem sei como funcionam.

Embora já tenha utilizado muitos de meus cupons, tenho no momento quase 40 para serem usados ainda! E ainda que minhas faturas de cartão de crédito estejam astronômicas, continuo acreditando que estou fazendo economia.

Todos os dias recebo por e-mail dezenas de ofertas. Os sites Aponta Ofertas e Vale Junto centralizam ofertas de diversos sites e encaminham aos inscritos, e com isso eu acabo conhecendo cada vez mais sites de compras coletivas. E por mais que eu tente, eu simplesmente não consigo parar! Ontem à noite, mesmo depois de ter constatado que nesse salário vai sobrar mês, não resisti e comprei a oferta de 10 sessões de plataforma vibratória por R$ 90,00...

Se você, pobre consumidor(a) indefeso(a) se identifica com o meu drama, só há uma saída para nós. Proponho aqui e agora a fundação do DECOCA (Dependentes de Compras Coletivas Anônimos). Seguindo o tradicional programa dos 12 passos, quem sabe conseguiremos recuperar o controle sobre nossos cartões de crédito!

Eu começo. Boa noite, pessoal. Meu nome é Oksana e eu sou uma dependente de compras coletivas (reconhecer o problema e nossa impotência diante dele é o primeiro passo). Ehm, já volto, gente, só vou ali dar uma olhadinha no e-mail do Groupalia que acabou de chegar.

Beijinhos!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A lógica do curso de pesca

Os grandes críticos do "mero assistencialismo" costumam usar com frequência a filosofia de que "não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar". Há pessoas que acreditam na validade de proporcionar um benefício mínimo, que propicie a mera subsistência de indivíduos em situação de extrema pobreza, embora creiam também na necessidade de qualificação profissional dessas pessoas para que sejam capazes de alcançar sua independência.

Os que são contrários a essa postura não enxergam todas essas nuances: pobreza, extrema pobreza, miséria... É tudo vagabundo ou bandido. Simples assim. E é um absurdo tirar dinheiro de quem trabalha pra alimentar essa gente que, evidentemente (como disse a Sra. Burns Serra acompanhando o marido em discurso aqui em Curitiba), deixa de trabalhar e ensina seus filhos a não trabalharem, porque vale muito mais a pena ficar vadiando e receber uma quantia escandalosa do governo, que pode variar de R$ 22,00 (vinte e dois reais) até R$ 200,00 (duzentos reais) por família.

É por isso que "dar o peixe" não é solução, jamais. O único modo de oferecer ajuda real para os vagab menos favorecidos é ensinando essa gente a pescar! É mostrando para eles que é preciso deixar a preguiça de lado, arregaçar as mangas e ir à luta, como fizeram todos os ricos desse país para chegar onde hoje estão!

Se alguém estiver morrendo de fome (e isso não é um modo de dizer "com muita vontade de traçar um Big Mac", acredite se quiser, tem gente que efetivamente MORRE DE FOME), a solução é oferecer-lhe um curso rápido de capacitação em empreendedorismo. E cobrar por isso, é claro. Afinal, o "mero assistencialismo" ofende a honra e diminui a auto-estima.

O único problema dos adeptos da filosofia do curso de pesca é que eles omitem alguns detalhes básicos de seu Sistema. Em primeiro lugar, o ensino da pesca exige professores altamente capacitados, além de uma estrutura adequada e dos materiais necessários. E isso tudo tem um custo, certo? Mas não se preocupe, senhor futuro pescador, pois o custeio da sua educação na área da pesca poderá ser financiado e, após formado, você terá a chance de pagar por tudo o que recebeu, devidamente corrigido e acrescido de juros à taxa praticada no mercado. Isso, é claro, se você puder atender a todos os critérios burocráticos, oferecer garantias e tiver um bom fiador.

Você não tem uma vara de pescar? Isso não é problema. Você pode utilizar uma vara alugada. Em troca disso, de três a quatro vezes por semana você deverá trabalhar para o Sistema. Caso necessite de anzol e linha, poderá adquiri-los na loja do Sistema, em troca de parte da sua produção semanal.

Também é importante que você saiba que o Sistema detém a propriedade do lago e de toda a região ao seu redor. Por isso, para ter o direito de pescar, você deverá ceder metade dos seus peixes. E lembre-se: as minhocas que vivem nas terras de propriedade do Sistema também pertencem a ele, de modo que, para utilizá-las como isca, você compromete mais uma parte da sua pescaria.

O Sistema não quer que você seja prejudicado, levando muito tempo para se deslocar de sua residência até seu local de trabalho. Portanto, você deverá morar de aluguel numa das casas construídas pelo Sistema na região do lago.

Como a pesca vai beneficiar todos os membros da sua família, nada mais justo que pagar um tributo ao Sistema, proporcional à quantidade de pessoas que vivem na sua casa. Também será cobrada uma taxa referente a obras de melhoria da região do lago e manutenção do material de pesca. E caso você morra, seus filhos deverão pagar uma tarifa de manutenção do direito de pesca.

Talvez seja difícil entender o motivo de tanta benevolência. Explico: o Sistema é orientado por princípios cristãos. A propósito, já ia esquecendo: 10% da sua produção será destinada à Igreja, ok?

É claro que o Sistema, dessa forma, oferece oportunidades reais de desenvolvimento pessoal. O que torna imprescindível a cobrança de uma taxa pela geração de honra e auto-estima.

E não se esqueça: se ao final do mês não sobrar nada além de dívidas para com o Sistema, se seus filhos não têm acesso a educação, saúde, lazer e muitas vezes não têm o que comer e a vida parece não ter sentido, saiba que isso se deve exclusivamente à sua postura derrotista. Certamente você não está trabalhando o suficiente para melhorar de vida. Ou está gastando tudo que ganha em cachaça.

Muitas pessoas dirão que o propósito do Sistema é manter você e sua família na miséria, para que, assim, sua força de trabalho seja utilizada de forma ilimitada para manter um quinto da riqueza de todo o mundo concentrada nas mãos de um milionésimo das famílias, perpetuando um sistema de exploração. O Sistema informa que, se você acreditar nessas besteiras, sofrerá as graves consequências de se aliar a movimentos subversivos e inimigos da liberdade.