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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Algo mais sobre o Elefante

Uma informação que dá um pouco mais de sentido ao filme é a razão da escolha de seu título. Em princípio, numa pesquisa feita no mesmo dia em que vi o filme, encontrei a explicação de que o nome teria sido inspirado num documentário de 1989, de Alan Clarke, o qual sugere que os problemas com os adolescentes seriam "como um elefante na sala de estar", algo que incomoda, mas as pessoas fazem questão de ignorar. Ou algo assim.

Sinceramente, essa explicação me pareceu apenas mais um adereço à lindíssima roupa nova do rei. Não acrescentou nada. 

Depois encontrei, nesta bem elaborada crítica na Revista Contracampo, uma justificativa bem melhor. Na verdade, Von Sant entendeu errado o motivo pelo qual Alan Clarke escolhera o título Elefante para seu documentário em 89. Ele achou que tinha a ver com "uma antiga parábola budista sobre um grupo de cegos examinando diferentes partes de um elefante. Nessa parábola, cada cego afirma convictamente que compreende a natureza do animal com base tão-somente na parte que lhe chega ao tato. Ninguém vê ou sente o objeto na sua totalidade, mas todos arriscam um palpite totalizante – e, naturalmente, equivocado. Mesmo após ter descoberto o verdadeiro motivo pelo qual o documentário de Alan Clarke se chama Elephant, Van Sant afirma que o seu filme, rodado numa high-school situada em Portland, tem mais a ver com a parábola dos cegos".

Isso sim faz sentido e dá pelo menos uma sunga para o rei cobrir suas partes pudendas. De fato, diante de grandes tragédias, como a que aconteceu em Columbine em 1999, as pessoas tendem a observar e justificar os fatos sob perspectivas limitadas. Cada grupo se ocupa de encontrar um ou outro culpado para o terrível incidente.

Von Sant procura mostrar todos os elementos possíveis sem fazer uma escolha declarada por qualquer um deles. Apenas mostra que estava tudo ali: pais ausentes, jogos violentos, a velha segregação de grupos na escola, o acesso à compra de armas pela internet, um documentário sobre nazismo na televisão... Enquanto a maior parte das pessoas escolhe um desses elementos como causa para o ocorrido - como os cegos que descrevem o elefante cada um de acordo com a parte que está tocando - em Elefante não há escolhas, apenas a imersão do espectador.

Mais um mérito do diretor, que escapou da receitinha de bolo de Hollywood.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Paço de novo

Então o namorido topou a aventura - ele sempre topa :) - e à noite voltei ao Paço da Liberdade na companhia de meu amado. Desfrutamos de outro projeto cultural da casa, a Mostra Carta Branca, em que cineastas são convidados para indicar sete filmes para serem exibidos na sala CinePensamento.

O filme de ontem, indicado por Eduardo Valente, foi o Elefante, de Gus Van Sant (o mesmo de Gênio Indomável), uma versão pessoal do diretor sobre o massacre na escola Columbine (que deu origem ao premiado documentário de Michael Moore).

Tenho a impressão (talvez por ignorância minha, não sei) de que determinados filmes são escolhidos pelos críticos por razões incertas para ocuparem o posto de obra prima do momento. E, assim como a roupa nova do rei, tais expoentes de genialidade também supostamente só podem ser enxergados por quem é inteligente. Por medo de dizer que achou uma bosta e ser tachado de estúpido, todo mundo sai da sala de exibição bradando elogios: "revolucionário", "de uma originalidade ímpar", "sensível como o teatro". Como diria namorido, sorry, but I'm allergic to bullshit.

Mesmo na minha ignorância eu consegui visualizar alguns pontos positivos no filme. Vamos a eles: as tomadas meio vagas focalizando nada por motivo algum, em muitos momentos conseguem atingir o que me parece ser o objetivo do diretor: conduzir à introspecção. Isso também é reforçado pela trilha sonora, com sons distorcidos de modo a introduzir o personagem no contexto quando interage com os demais e, logo em seguida, introjetá-lo novamente em seus próprios pensamentos (que o espectador não sabe quais são, então só resta imaginar). A câmera na nuca dos personagens, caminhando com eles, uma fotografia primorosa, a naturalidade com que os adolescentes desenvolvem as cenas e, principalmente, a ausência de picos de emoção mesmo nas cenas que, em tese, seriam as mais dramáticas, têm por resultado um filme que exige que o espectador reflita, pense, tire suas próprias conclusões, até porque não apresenta as causas nem tampouco as soluções.

Parece bom, né? E seria ótimo, não fosse o enorme esforço para ficar acordada até o final. Não é que o filme seja ruim, longe disso, mas não é brilhante nem inesquecível. Pronto, falei. Podem os psycho cults me achincalhar agora. O rei está pelado, minha gente, vamos parar de surtar, por favor. 

A primeira vez que me lembro de ter me deparado com o fenômeno "roupa nova do rei" foi em Dogville, que é do mesmo ano que Elefante, 2004. Inclusive, Dogville era o favorito do Festival de Cannes, e acabou perdendo para o Elefante. Sobre o filme do cão: ok que o diretor tenha lá seus méritos de economizar no orçamento riscando o cenário com giz no chão, de retratar a maldade do ser humano e a hipocrisia da vida em sociedade e não sei o que mais. Mas daí a dizer que isso é o ápice da genialidade é carregar demais nos paetês imaginários da roupa do rei. Eu achei o filme MUITO chato, e o ritmo devagar quase parando é ainda mais difícil de suportar com a ausência de cenários. Só despertei mesmo na apoteótica cena final, em que a grande e graciosa heroína Grace termina, por meio da vingança sangrenta, igualando-se aos seus algozes. Pff. Aí vem um pshyco cult articulando exageradamente: o me-lhor filme que já vi na-mi-nha-vi-da! 

Respiro fundo e concluo que preciso mesmo desenvolver mais a minha tolerância. Porque se desenvolver a força física, posso acabar partindo para a violência. Just kidding.

De qualquer forma, como se pode perceber, a experiência proporcionou alguma reflexão. É sempre bom conhecer coisas novas, mesmo que seja para não gostar delas. Ah, e o Paço me conquistou de vez: além dessa sala de exibição bacana (by the way, a exibição foi gratuita e aberta ao público, mesmo assim só tinha meia dúzia de espectadores) e da sala onde, mais cedo, eu havia visto o concerto de bandolim, tem mais várias outras atrações: a sala de internet (acesso gratuito), a biblioteca, a livraria e lojinha de souvenires, e o melhor de tudo: o café. Charmosíssimo, com flores amarelas sobre as mesinhas, com as enormes portas abertas com vista para as frondosas árvores da Praça Tiradentes. Lindo! Certamente voltarei.

Beijos

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Diversão barata e almoço com amigas

Ontem, após o trabalho, eu e namorido nos encontramos num shopping para um programa que é uma boa dica para o pessoal que gosta de cinema e também de gastar pouco (sim, um grupo bem pequeno de pessoas gosta dessas duas coisas): segunda-feira o ingresso no UCI custa R$ 8,00, de modo que a meia entrada sai por meros R$ 4,00.

Se você não tem carteirinha de estudante nem está pensando em ingressar numa pós-graduação ou algo do gênero, ainda existe uma chance: caso você seja cliente do Itaú, também paga meia no UCI.

Já no Cinemark, são os cliente da Claro que recebem o desconto de 50%, basta se cadastrar no Claro Clube. Com o meu cartão do Claro Clube, posso comprar dois ingressos pagando meia (alguns clientes só podem comprar um). Não estou a fim de fazer propaganda (até porque o Itaú, a Claro, o UCI e o Cinemark, ingratos, não estão me pagando nada). A intenção é só dar uma dica que pode ser interessante. Eu mesma só descobri ontem que pagava meia por ter conta no Itaú.

Além disso, outros cinemas têm dias com preços especiais bem reduzidos. É sempre bom dar uma pesquisada para garantir um entretenimento baratinho, não?

Assistimos ao Sherlock Holmes do Guy Ritchie. Diversão do começo ao fim. Muita ação, ritmo intenso e, especialmente, muito humor na repaginação de Holmes. Robert Downey Jr. está totalmente à vontade interpretando o detetive ainda racional, dedutivo e lógico, porém porcalhão, preguiçoso e muito, mas muito sarcástico. Jude Law faz um Watson mais macho do que a noção que eu tinha do médico antes de Ritchie dar sua versão bem humorada.

Talvez a "crítica especializada" (who the f*ck they think they are?) discorde. Talvez pense que as modernices de Ritchie irritam, que o clássico personagem foi corrompido, que sobram efeitos especiais, que o gancho para a continuação foi arrogância, que blábláblá whyskas sachê. Como eu sou amadora e, em geral, adoto critérios mais emocionais do que técnicos, tenho a liberdade plena de dizer que gostei.

Mudando de assunto, hoje almocei no charmoso Jacobina com as queridíssimas Loira e Grace. Almoço com boas amigas é assim: gargalhadas garantidas ou seu dinheiro de volta. Desagradável é o expediente de trabalho, que espreme o curto tempo livre entre dois períodos longuíssimos de escravidão/tédio produtividade.

Assim, o almoço termina muito antes do assunto. Tudo bem, já deixamos reservados diversos tópicos para a pauta da próxima reunião, especialmente os que não forem previamente discutidos em correspondências virtuais quase diárias. Isso, é claro, sem contar as novidades que as moçoilas trarão do Carnaval em Salvador. Ai, ai, isso não vai prestar.

Beijos

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

E o cinema brasileiro, hein, quem diria?

Não sei se acontece com vocês, mas eu geralmente assisto aos produtos do cinema nacional com uma complacência prévia, uma camaradagem para com os conterrâneos que se atrevem a lançar qualquer coisa em nosso cenário cultural. Muitas vezes, porém, nem a minha benevolência salva as produções brasileiras de irem para a lista de horas perdidas na minha vida.

Não é o caso de alguns filmes que vi recentemente. Note-se que nenhum deles é lançamento, mas eu não os havia visto ainda. Semana passada vi Meu nome não é Johnny. Excelente atuação de Selton Mello. O roteiro também é interessante por não abordar a fórmula batida de garoto que cresceu na favela e não viu alternativa fora do submundo do crime. Sem levantar a bandeira antidrogas ou anti qualquer coisa, o filme mostra de forma natural como o menino de classe média, de boa família, de boa educação e com tudo para "dar certo" na vida se enveredou sem querer nem pensar pelo tráfico. O tom é despretensioso. Embora o filme trate de assuntos pesados como uso e tráfico de drogas, criminalidade, cadeia, a trama vai além da crítica social, fazendo um bom entretenimento também, sem perder o ritmo intenso. Os personagens são do tipo que eu mais gosto: a gente não se identifica com um herói nem com um bandido, mas com um ser humano.

Ontem assisti a Tempos de Paz, de Daniel Filho. Ao contrário dos sucessos de bilheteria Se eu fosse você 1 e 2, do mesmo diretor, Tempos de Paz não é uma história novelesca transportada de modo desajeitado por atores globais para a telona (felizmente).

Já no início do filme eu estava extremamente emocionada, por razões pessoais. O filme retrata a chegada de imigrantes europeus ao Brasil, tentando escapar dos horrores da guerra, ainda que não possam fugir de suas lembranças. Meus avós vieram para o Brasil da Ucrânia nessas condições. Embora eu tenha poucas referências do meu avô, que faleceu quando minha mãe tinha apenas 4 anos de idade, posso imaginá-lo chegando à sua nova pátria, trazendo nos olhos a esperança de uma vida melhor, e no peito um coração amargurado pela tristeza da 1ª Guerra Mundial.

Assim como o protagonista, interpretado por Dan Stulbach, meu avô também era um artista, um ator, e veio para o Brasil emprestar seus braços para a lavoura. Quando a gente pensa na chegada desses imigrantes ao Brasil, tem uma ideia das perdas no aspecto material: deixar para trás casa, posses, pátria. Mas é muito mais doloroso perceber que ficaram para trás também referências, vizinhos, amigos, parentes, muitos deles mortos. E, ainda, a identidade. Para muitos, o início de uma nova vida deve ter sido uma oportunidade interessante, mas para outros deve ter significado dar adeus ao que eles de fato sabiam e gostavam de fazer, para assumir uma personalidade distante da sua própria, mas que era - simplesmente - possível.

As interpretações dos protagonistas - Dan Stulbach e Tony Ramos - conseguem fugir dos clichês e não apelar para o melodrama barato. Stulbach, num monólogo, arranca lágrimas de seu até então insensível  e inabalável inquisidor. Minhas, então, nem se fala. É verdade que, até dado momento, chega a ser engraçada a semelhança do ator que parece o Tom Hanks com o personagem deste último em O Terminal. Por alguns intantes, ele quase escorrega num caricaturismo. Por sorte, ele escapa dessa cilada e monta um personagem maravilhoso, digno de aplausos de pé.

O filme presta uma bela homenagem à arte do teatro, fala de sublimação através da arte. Homenageia também aos imigrantes que, como diz, a guerra fez brasileiros. Um espetáculo levado dos palcos para o cinema com grande sucesso.

Outro filme brasileiro visto ontem foi Estômago, do curitibano Marcos Jorge. Foi interessante ver a minha cidade retratada no filme, ainda que a história em si não escancare que se passa em Curitiba. Legal, para variar um pouco, o cenário urbano não ser representado por São Paulo ou Rio de Janeiro. Talvez os mais atentos tenham percebido que os detentos se referem a um fulano que foi transferido para Piraquara, o que é uma boa dica só para quem sabe onde fica Piraquara, claro. Mas para quem já viu de perto, desde a rodoviária, passando pelos botecos sujos e pensionatos pobres do Largo até o ponto daspu, é uma viagem ver esses lugares virarem cenário de filme.

Além disso, é mais um filme que consegue tratar de temas delicados como prostituição, cadeia, crimes, exploração e pobreza sem parecer documentário-denúncia. Pelo contrário, a trama se desenvolve com um humor inteligente e ritmo agradável. E mesmo que o enredo gire em torno do clichê do retirante nordestino que chega à cidade grande em busca de uma vida melhor, consegue superar o lugar comum e fazer o mesmo de um jeito diferente.

Gostei muito de ver o protagonista se desenvolvendo ao longo da trama. Bem na verdade, ele começa ferrado e termina pior. Mas, de uma forma bem peculiar, consegue resgatar um quê de dignidade e se destacar em seu meio social, ao ponto de esboçar até uma estranha felicidade. E ele faz isso através de um talento que, inicialmente, nem sabia que possuía: cozinhar.

Mais uma vez, a humanidade dos personagens é o que me conquista: nenhum deles é ícone insuperável de crueldade, nem tampouco exemplo de santidade. Não há heróis imbatíveis nem vilões detestáveis. Por fim, pode até ser que o filme não desperte muitas reflexões sobre as mazelas da sociedade. Seu mérito está justamente aí: em divertir de forma despretensiosa e inteligente, retratando a realidade sem propor soluções e respostas. É a simples (e tão rara) arte de saber contar uma boa história.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

2012 - Realmente, uma catástrofe


Fui ao shopping com o namorido nesse domingo, com um objetivo exclusivo que não conseguimos cumprir por culpa de uma vendedora vaca estúpida mal educada sem vontade de trabalhar. Já que estávamos lá, resolvemos ir ao cinema, para não perdermos a viagem. Eu queria ver Julie & Julia, mas achei que o Dé iria acabar dormindo durante o filme, e eu ia me irritar com a insensibilidade masculina. Então assistimos ao 2012. E como eu não sou chegada ao subgênero de filmes-catástrofe, ele ficou me devendo a escolha do próximo, e vai ter que ficar acordado até o fim (nem que eu precise fazer cócegas para garantir que isso aconteça).

Quanto ao filme, ele é mais ou menos tão ruim quanto eu esperava. Na verdade um pouco pior. Pra variar, o trailler mostra tantas cenas repletas de efeitos especiais incríveis, o Cristo Redentor despencando, aquilo tudo, que no filme você espera ver muito mais. E você não vê muito mais. Não percebo grandes diferenças (exceto pelos cenários das maquetes) entre as cenas de destruição desse e dos outros filmes do mesmo diretor (Roland Emmerich), como Independence Day e O dia depois de amanhã. Ondas gigantescas, rios de lava, terremotos, grandes monumentos da história da humanidade ruindo, gente desesperada morrendo, bah. Tudo muito igual.

O Dé até quis argumentar: “ah, não foi tão ruim, você até chorou”. Okey, vamos combinar, eu choro em comercial de margarina. Sempre escorria uma lágrima furtiva quando passava aquele comercial do Gelol com o slogan “não basta ser pai, tem que participar”. Eu me debulho em lágrimas em último capítulo de novela. Eu me emociono assistindo ao jornal. Passei uma semana em depressão quando vi Titanic no cinema (dá-se um desconto: eu tinha uns 15 anos e era apaixonada pelo Leo). Enfim, minhas lágrimas não são um bom parâmetro de qualidade.

Sendo assim, é claro que eu choro cada vez que vejo uma cena de um pai se despedindo de uma filha por telefone antes do mundo explodir. Quando uma mãe desesperada só pensa em salvar a vida dos filhos. Quando um casal apaixonado se olha pela última vez antes de uma tsunami avacalhar com tudo. Eu não consigo não me imaginar no lugar da personagem. É a identificação que me comove.

O filme é puro clichê (SE VOCÊ NÃO VIU AINDA E NÃO QUER SABER DETALHES DA HISTÓRIA, PARE DE LER AQUI, EMBORA EU DUVIDE QUE TENHA ALGO NO FILME QUE VOCÊ NÃO TENHA VISTO AINDA). Já começa pelo chavão do pai separado (John Cusack) tentando se reaproximar dos filhos num acampamento (alguém realmente faz isso?), e pelas faíscas de amor mal resolvido quando se encontra com a ex-mulher (Amanda Peet).

Há uma cena em que um casal (a ex do Cusack com o atual marido, Thomas McCarthy) está fazendo compras, em plena crise conjugal. O marido diz “parece que tem algo nos separando”, e o chão começa a tremer. Naquele momento eu falei: “não, eles não fizeram isso...”. Sim, eles fizeram. [IRONIA MODE: ON] O absolutamente imprevisível . A fenda se abre no chão deixando o marido e a esposa em lados opostos do cannyon que se abriu bem no meio do mercado. Uau, surpreendente. Do mesmo jeito que uma outra fenda se abre no teto da capela Sistina, separando o dedo de Deus do dedo de Adão na famosa cena da criação retratada por Michelangelo.

Algo que irrita nesses filmes é o fato de o mocinho e o pessoal que vai se salvar junto com ele fazerem coisas altamente estúpidas. Como, por exemplo, quando o personagem do Cusack deixa a família no avião e vai procurar o mapa de localização das naves salvadoras, que está em mãos do profeta maluco que mora no meio da floresta (Woody Harrelson). É ÓBVIO que ninguém numa situação dessas levaria a filhinha de sete anos, não só pelo perigo da situação, já que a porra toda está desmoronando, explodindo, entrando em erupção, mas também porque a menina ia atrasar tudo! Mas, claro, no filme o cara leva a criança junto.

Nos últimos instantes antes da lava-fogo-destruição-poeira-cósmica atingi-lo, ele procura minuciosamente pelo mapa na prateleira indicada pelo maluco. Abre o mapa do metrô, dobra de novo... Por que diabos o imbecil não cata todos os mapas e sai correndo pra conferi-los dentro do avião? Ah! E também para que o público possa apreciar todos os efeitos criados para o filme, é necessário que o protagonista passe por absolutamente todos os desastres possíveis, escapando ileso enquanto o restante dos seres vivos é varrido da face da Terra.

Ah, sim, não podemos esquecer do cara (Thomas McCarthy) que fez duas aulinhas num monomotor e, no momento de desespero, aprende a pilotar qualquer avião. E já sai fazendo manobras radicais, split, duplo looping, desviando de prédios em queda... Aí, quando já se transformou em candidato pra Esquadrilha da Fumaça, tem a chance de salvar a própria vida e da família simplesmente servindo de co-piloto, mas faz questão de ressaltar que não pode fazer isso, que não sabe pilotar, que precisa ser honesto... Alouuuuu, vai fazer charminho numa hora dessas?

O filme inteiro só consegue fazer uma única surpresa, e é uma surpresinha bem mixuruca. Os personagens passam o filme todo falando nas tais naves que foram construídas para salvar a elite do planeta, e finalmente o espectador descobre que não são naves espaciais, mas sim arcas gigantescas. Ooooohhh, tipo a arca de Noé, né, tia? É. Isso mesmo.

Aí é uma sequência de sacanagens: os caras se matam para conseguir entrar clandestinamente na arca, até que o pessoal lá dentro sofre um ataque de solidariedade e resolve abrir as portas para o povo entrar. Então o china que conseguiu o ingresso de cambista para a salvação acaba moendo as pernas, o chato do marido atual da mocinha, que só serve para atrapalhar o romance entre o casal principal, finalmente sai de cena com uma morte dolorosa. E então o cabo que os penetras usaram pra entrar fica enroscado nas engrenagens, impedindo a porta gigantesca da bagaça de fechar, e sem o fechamento da porta, os motores não ligam, e sem ligar os motores, a humanidade é extinta.

Nessa hora foi inevitável pensar: “isso que dá comprar arca made in China”.

De repente, um cara anuncia no alto-falante para o que restou da raça humana que não tem mais jeito, que todo mundo vai morrer, que não tem como chegar ao tal do cabo enroscado porque a área está toda submersa e seria uma missão suicida. Curiosamente, o povo não se desespera, não se instaura o pânico, tudo muito tranquilo.

O mocinho, ao ouvir as palavras “missão suicida”, pára pra pensar se vale a pena e tal, ignorando o fato de que, se ele não for, vai morrer do mesmo jeito, junto com o resto da galera, espatifada no Everest. Claro que nessa cena, assim como em muuuitas outras do filme, não poderia faltar um diálogo inútil, típico daqueles momentos em que NINGUÉM em sã consciência pararia para conversar.

O cara está indo salvar a arca da destruição iminente, o impacto será em poucos minutos, mas o filho pré-adolescente tem que querer ir junto, pra ajudar o pai. Em vez de o cara dizer pra mãe do menino: “segura esse moleque aí, cacete”, ele pára pra fazer aquele discurso emocionante.

[CANÇÃO EMOCIONANTE - EU CHORANDO]
“Filho, você já está me ajudando. Lembra o dia em que sua irmãzinha nasceu, e você se tornou o irmão mais velho dela? Então. Desde aquele dia você é o responsável por cuidar dela quando o papai não está por perto. Nesse momento, sua irmãzinha está se cagando de medo e precisa de você. Eu quero que você vá lá e diga algumas palavras doces para ela se acalmar, e se você fizer isso, eu fico tranquilo. Isso é tudo que seu velho pai poderia esperar de um filho num momento desses, em que o mundo está acabando, a humanidade chega ao fim, e essa voz sexy do computador anuncia que só faltam 2 minutos para o impacto fatal. Agora eu preciso tomar muito fôlego, por que ficarei sem respirar muito tempo. Embora só tenhamos 2 minutos para a porra toda explodir e afundar, essa cena vai durar ainda uns 15 minutos de intensa agonia, você vai ver. Se um dia, quando crescer, você virar protagonista de um filme-catástrofe, finalmente vai entender o estranho paradoxo do tempo. O cronômetro indica agora 30 segundos para o impacto, mas eu posso conversar com você por mais cinco minutos, e lançar olhares apaixonados para sua mãe, que, diga-se de passagem, eu nunca deixei de amar, e, olha lá, no cronômetro passou só um segundo. É incrível. Bom, é isso, meu filho, fique com Deus, se cuide, coma vegetais, estude bastante, não use drogas, cuide da sua mãe, use camisinha (não com a sua mãe, moleque pervertido), e não invente de ser escritor como seu pai, que isso não dá dinheiro”.


Enquanto isso, o povo todo da arca observa emocionado, através das câmeras estrategicamente posicionadas. Quando você pensa que ele foi, ele volta, dá um beijo na testa do guri e diz “eu te amo”.
[MÚSICA DE SUSPENSE - EU ENXUGO AS LÁGRIMAS NA MANGA. SERÁ QUE NOSSO HERÓI VAI CONSEGUIR?]

Massss, claro, apesar de todas as recomendações, evidentemente, o maldito moleque teimoso vai atrás do pai, o que dá início a um outro diálogo desnecessário (“eu disse pra você não vir, blá blá blá”, "mas, pai, eu queria ajudar, blá blá blá whyskas sachê”). Depois de meia hora o mocinho finalmente consegue desenroscar o cabo, com a ajuda do filho (ufa, ainda bem que ele foi, né?). Na volta, por óbvio, ele fica desaparecido debaixo da água durante algum tempo, pra rolar aquela expectativa na galera “será que o mocinho morreu?”, mas eis que, quando todos já perdiam as esperanças, emerge nosso herói, aplaudido de pé, o salvador da humanidade. Parece que a essas alturas todo mundo já esqueceu que foi ele mesmo que, junto com sua turminha, deixou o cabo enroscado que impediu a porta de fechar e quase matou toda a galera.

Ainda há mais uma coisa importante a observar: os “escolhidos” para sobreviver foram os chefes de estado, alguns militares que comandavam a parada, um pessoalzinho que trabalhava pra casa branca e os felizardos que compraram a passagem por um bilhão de euros por cabeça. Na última hora, resolveram abrir as portas da esperança e deixar entrar o pessoal que se acotovelava do lado de fora. Essas pessoas eram, basicamente, os chinas operários que trabalharam na construção das arcas, e outros multibilionários que, embora tivessem pago a passagem, estavam sendo deixados pra trás porque uma arca estava meio detonada. Além dessa gente, também conseguiram se salvar uns animais, obras de arte, e as duas famílias que entraram clandestinamente.

Agora, raciocinemos. Primeiro que ninguém se preocupou em levar uns médicos, engenheiros, dentistas, químicos, ou seja, a classe média toda se estrepou lá fora, não sobrando ninguém com conhecimentos práticos pra tornar a vida suportável. Com exceção do escritor pobretão estadunidense e sua família e de uma galera de operários chineses, o que restou da humanidade foi um bando de políticos, militares de alta patente e gente podre de rica, sem o mínimo de consideração pelo próximo. Delícia de mundo novo, não? Sinceramente, acho que o pessoal que morreu frito na lava vulcânica levou a melhor.

Temos ainda outros clichês, como o presidente dos Estados Unidos, o homem mais poderoso da Terra, o abnegado chefe de uma nação que decide morrer junto com ela, ser negro (Danny Glover). O geólogo (Chiwetel Ejiofor) que possibilitou a salvação dos poucos felizardos, também é negro. E termina, claro, pegando a filha do presidente (Thandie Newton), que, aliás, foi responsável pela atuação mais desinteressante do filme. A onda do politicamente correto parece ter proibido selecionar atores negros para fazer papéis que não sejam de salvadores da humanidade. Deuzulivre ver num filme um cabra safado, um ladrão, um assassino que não tenha olhos azuis. Além de tudo, o único continente do mundo que não foi destruído, sendo, inclusive, elevado pelas forças da natureza foi – adivinha? – a África.

O gorducho insensível (Oliver Platt), que desperdiça uma passagem grátis porque não se incomoda nem em salvar a própria mãe esclerosada, claro, é branco. O gordo desgraçado que só pensa em si mesmo e nos filhos gordos medonhos, e usa as pessoas em seu benefício como bem entende, é russo. Nem tinha parado pra pensar, até agora, no preconceito hollywoodiano com os gordeenhos. O indiano (Jimi Mistry) que de fato descobriu que o planeta estava fervendo por dentro feito um forno micro-ondas, além de aparecer só umas 3 vezes, sem muito destaque, morreu na tragédia, com toda sua família. Não tem um único descendente de japa no filme. Ou seja, tudo muito igual.

Por fim, você não vê a hora que o filme chegue ao fim. O roteiro se arrasta, permeado de participações relâmpago de personagens que têm poucos minutos pra tentar se despedir dos parentes e fazer uma oração antes de ir pelos ares. Longas cenas retratam a politicagem por trás dos bastidores. Quanto aos tão anunciados e esperados efeitos visuais, algumas cenas são realmente incríveis e outras, totalmente decepcionantes. E aí o filme termina assim, com o espectador vislumbrando a criação de uma nova ordem mundial, fundada exclusivamente pela aristocracia do planeta e mais alguns felizardos certamente trabalhando para os primeiros.

Resumindo: Roland Emmerich, por gentileza, quero meus 158 minutos de volta.