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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O dia perfeito

Sendo hoje o dia do mundialmente celebrado São Valentim (o casamenteiro dos gringos, que deve ser brother do nosso Santo Antônio), creio que seja um bom momento para fazer o relato a seguir.

6 de janeiro de 2011. Despertamos muito cedo, por volta de 6h30 da manhã, mas o sol já ia alto. Os dias começam cedo e terminam tarde em Mendoza, Argentina. Levantamos, tomamos café da manhã e nos arrumamos em silêncio, para não acordar nossos anfitriões Alejandro e Noelia.

A previsão de chegada da van que nos conduziria pelo passeio de Alta Montaña era em torno das 8h da manhã, mas ela chegou somente depois das 8h30, porque fomos os últimos passageiros a serem apanhados. Nossa guia, Carolina, pronunciava um espanhol muito claro, de fácil compreensão.

A estrada que leva ao circuito de Alta Montaña, que acompanha o curso do Rio Mendoza,  impressiona por sua qualidade e, principalmente, pela beleza das paisagens, com a fantástica vista do Cordão de Prata. Logo que termina a linda região vitivinícola de Luján de Cuyo, chegamos à primeira parada do passeio, ainda na pré-cordilheira: Potrerillos. Trata-se de um pequeno povoado, com residências de fim-de-semana de pessoas desafortunadas de Mendoza. Dali se avista o Dique Potrerillos, um lago artificial que abastece a cidade e impressiona pelo tom de intenso azul.
Puente Histórico de Picheuta

Mais adiante, encontra-se Uspallata, uma região multicolorida, com diferentes formações montanhosas. Nesse vale mendocino foi filmado o filme Sete anos no Tibet. Após, uma parada na histórica Puente de Picheuta, que atravessa o rio gelado e cristalino de mesmo nome, onde abasteci a garrafinha de água. Após passar pelo povoado de Punta de Vacas (onde tem início uma das rotas de ascenso ao Aconcágua, la Ruta de los Polacos), paramos em Los Penitentes, onde subimos o teleférico. Uma maravilhosa vista panorâmica da região nos esperava lá em cima. 

Mirador del Aconcágua
Nesta parte do caminho, somos constantemente acompanhados pelo Aconcágua, a maior montanha do continente americano, com 6.962 metros de altitude (e crescendo um pouquinho ainda a cada ano), cuja melhor vista se tem desde o Mirador del Aconcágua. De origem quechua, a palavra Aconcágua significa "sentinela de pedra". Foi nesse lugar mágico, diante dos olhos vigilantes do gigante, que o Dé fez a maior surpresa da viagem - e talvez a maior e melhor da minha vida até hoje: ajoelhou-se diante de mim, tirou do bolso um par de alianças e me pediu em casamento.

Só me lembro de ter sentido seu coração tão acelerado uma vez antes: no dia em que me disse pela primeira vez que me amava. Meu coração acompanhava o dele, em ritmo e emoção. O pedido foi perfeito, do jeito que eu esperava, embora eu nunca tenha explicado a ele o jeito certo de me pedir em casamento. Existem coisas que uma mulher não pode explicar nem pedir a um homem, sob pena de o gesto perder seu valor. É como dizer: "por favor, compre flores para mim". Não tem a mesma graça.

Pois bem. Sempre considerei "quer casar comigo?" como uma pergunta, e não um pedido. Na adolescência vi uma peça de teatro em que um personagem dizia isso. Quando um homem deseja ter uma mulher ao seu lado por toda sua vida, ele deve pedir e não perguntar se ela quer. São coisas bem diferentes.

E apesar de eu jamais ter comentado isso com o Dé, ele acertou. Não bastasse o efeito surpresa + romance, acertou no jeito de pedir. Disse que me ama, que quer me fazer feliz por toda minha vida e pediu: "casa comigo". A resposta ao pedido era evidente, mas fiz questão de pronunciá-la, com a voz tomada de emoção: "sim, é claro que eu caso".

Daquele momento em diante, o passeio, que já era lindo, ficou ainda mais especial. Cada uma daquelas paisagens, emolduradas pelo céu azul, parecia um presente para nós. Passando a vila de Las Cuevas e antes de chegar ao túnel internacional que leva ao Chile, a van percorre uma rota que chega ao Cristo Redentor, situado a 4.000 metros de altura. 

Cerro Cristo Redentor - destaque para as alianças...
Metade do monumento encontra-se em território argentino e a outra metade em solo chileno. Foi erguido para celebrar a paz e a fraternidade entre os dois povos. Nesse local, tiramos nossa primeira foto como noivos, quase sendo carregados pelo forte vento.

Na volta, paramos na Puente del Inca, uma formação natural rochosa sobre águas termais. Ali há também diversos vendedores de artesanato, além de um restaurante onde almoçamos antes de retornar a Mendoza. 

Ao chegar, dirigimo-nos ao prédio da Prefeitura onde, justo naquela noite, haveria um evento cultural de entrada gratuita. O terraço do prédio - Terraza Jardín Mirador - oferece uma vista panorâmica da cidade, além de possuir pequenas amostras das plantas da região (daí o nome Jardín Mirador). Ali acontece, nas quintas-feiras de verão, o espetáculo, patrocinado pela Prefeitura, chamado Música y Vino en las Alturas.

X-Teléfono
Naquela noite, o show era da banda X-Teléfono, de San Rafael, na província de Mendoza, que toca  flamenco-pop-rock. Muito bom, especialmente ao vivo. O vinho servido - também gratuitamente - foi um premiado e delicioso Malbec produzido na região.

Já passava das 21h quando o sol se pôs. Assistimos ao entardecer ao som de X-Teléfono, degustando um vinho maravilhoso, em meio ao simpaticíssimo e acolhedor povo mendocino. O final perfeito para um dia perfeito.

Na volta para a casa de nossos hosts, caminhamos tranquilos pelas ruas, onde muita gente celebrava ainda o Dia de Reis. Apresentações pelas ruas, pessoas conversando nas praças, crianças brincando. No ar, toda uma sensação de que a vida vale a pena. Apesar do cansaço, não pudemos ir dormir sem antes passar algum tempo conversando com nossos amigos Alejandro e Noelia, que tornaram nossos dias em Mendoza ainda mais especiais.

E assim, depois de um ano e um mês vivendo juntos, compartilhando não somente o mesmo teto, as contas, as responsabilidades, mas também a indizível felicidade de viver ao lado de quem amamos, o Dé e eu estamos noivos! E o namorido, portanto, foi promovido a noivorido.

♥

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Cuidando do meu nariz!

Bem, queridos, estou de volta ao trabalho. Oi? Você não sabia que eu estava de férias? Sim, claro, estava ocupada demais fazendo nada para vir aqui e escrever que estava de férias. Mas agora acabou. 

Em sentido geral, pode-se dizer que voltar ao trabalho é uma coisa boa. Significa que sou um ser humano capaz e produtivo, que tenho uma ocupação, um meio honesto de obter uma contraprestação por meus serviços, possibilitando que eu pague minhas contas, adquira coisas que eu quero, realize sonhos, conquiste objetivos. Em sentido estrito, porém, significa apenas que em vez de estar de pijama embaixo das cobertas vendo Two and a half men estou com as mãos congelando no teclado, cheia de prazos a cumprir. Saco.

Essas minhas férias fugiram completamente à ideia glamourosa de viajar, escapar desse frio tenebroso, conhecer outros lugares, tomar marguerita no bar da piscina, aquela coisa básica. Tirei duas semanas para incorporar a sabedoria dos nossos irmãos ursos e hibernar. Passei tanto tempo deitada - dormindo, lendo, assistindo à TV ou comendo - que meu corpo está inteiro dolorido, ainda tentando se habituar novamente à posição vertical. 

Aproveitei também para fazer uma pequena intervenção cirúrgica em meu nariz, para realizar um velho sonho... Respirar. Ah, a alegria das pequenas coisas... 

Na verdade eu já fiz uma rinoplastia há 10 anos. Embora tenha melhorado um pouco o aspecto estético do meu nariz - que era simplesmente MEDONHO - a cirurgia não ajudou em nada na parte funcional. E graças à minha impossibilidade quase absoluta de respirar pelo nariz, com o tempo fui ganhando cada vez mais problemas: uma tosse constante, manchas nos dentes e até uma alteração progressiva da minha arcada dentária superior, prejudicando minha mordida. 

Mesmo assim, operar o nariz DE NOVO não foi uma decisão nada fácil, porque a primeira vez foi bastante traumatizante. Eu não sou de fazer drama à toa, suporto a dor com relativa facilidade e aquela nem foi a minha cirurgia mais difícil, mas acredite: eu sofri. 

Primeiro que o meu cirurgião era um poço de sensibilidade. Na primeira vez que me examinou, comentou com o médico residente ao seu lado: "Olha a ponta desse nariz! Sério, nunca vi uma ponta de nariz tão feia na minha vida!". E eu tipo: "Ahm, com licença, não quero incomodar, mas... Eu estou aqui."

Além disso, não sei se foi somente o fato de as técnicas cirúrgicas serem mais primitivas à época, se o meu nariz além de ter a ponta mais feia do mundo ainda era o mais difícil de operar do universo ou o cirurgião não era dos melhores, mas eu acordei da anestesia completamente desfigurada. Claro que eu não sabia disso, já que estava lentamente despertando de uma anestesia geral, e não tinha como entender porque as pessoas que tinham conversado comigo alegremente horas antes (outros pacientes que conheci enquanto esperava ir para o centro cirúrgico) me olhavam como se eu fosse uma estranha. "Devem estar bem loucos da anestesia", eu pensava.

Aí a enfermeira vinha, muito gentil, e enxugava com um chumaço de algodão as lágrimas que escorriam do meu olho direito. Nunca as do esquerdo. Quando consegui erguer a mão até os olhos descobri a razão: o que escorria do meu olho direito não eram lágrimas, mas sim sangue que saía do meu nariz e entrava no olho. Até que a gênia da enfermeira finalmente teve a ideia de reclinar um pouco a cama, de modo que o sangue escorresse só por baixo, a não por todas as partes.

Meu rosto estava inteiro inchado e cheio de hematomas. Até minhas gengivas e meu céu da boca incharam. Parecia que tinham tocado fogo em minha face e apagado com um tamanco holandês. De repente, um sopro de conforto em meio ao sofrimento: minha mãe surgiu na porta da sala, procurando por mim. Eu disse "oi", e ela continuou procurando por mim. Chamei, ela me olhou, e continuou procurando por mim. Eu estava ainda muito atordoada para entender a verdade: minha mãe não me reconhecia. Quase tive que lembrar de algum segredo só nosso para dizer e provar que eu era eu mesma. Quando finalmente ela se convenceu de que aquela figura disforme era sua filha, com sua voz doce, disse-me: "já volto" e foi lá fora desmaiar.

Os dias seguintes foram bem difíceis. Eu sentia dor o dia todo. Queria morrer quando as pessoas apareciam pra me visitar. Minha mãe dizia: "Mas como vou dizer para não virem?", e eu: "Dizendo! Fala que tenho uma doença infecciosa e mortal!". Mas minha mãe, presa às convenções sociais, achava falta de educação. Hoje me pergunto se ela não estava secretamente cobrando ingresso dos visitantes.

Depois de uns dias, voltei ao consultório do médico para tirar o tampão, forma moderna de tortura, consistente em pedaços quilométricos de gaze embebida em pomada, socada nas vias nasais até as proximidades do cerebelo. As secreções e o sangue tendem a ressecar dentro do nariz, fazendo a gaze aderir ao tecido em processo de cicatrização. Feito isso, num exercício extremo de sadismo, o algoz médico puxa a gaze com uma pinça, descolando pedaços da alma do paciente no processo.

Findo o sofrimento, terminei com um nariz esquisito, torto, com uma ponta excessivamente arrebitada, e o melhor: respirando exclusivamente pela boca. Meu cirurgião, sempre sensível aos anseios da alma feminina, concluiu: "Não ficou dos 10 mais bonitos, mas, comparado ao que era, acho que está ótimo!".

Agora aposto que você entende porque demorei mais de 10 anos para reunir toda coragem necessária para enfrentar a faca de novo. 

Bem, como disse, estou de volta ao trabalho, o que me impede de passar o resto do dia escrevendo no meu blog. Sim, eu sei, trabalhar é super inconveniente. Vou almoçar agora, e amanhã ou depois eu volto para contar o restante da aventura.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ma oeee, quanto tempo!

Ei, amigos da Rede Sbrubles, estamos aqui nesse lindo dia de merda, mais uma bela quinta-feira de trabalho, uhuuu. Já há muitos e muitos dias eu vinha estranhando o sumiço do chefinho. Não me pediu nada, nem fez a cRássica pergunta: "quais são suas pendências?", nem coisa alguma. Nas vezes em que ligou aqui no meu ramal foi só para pedir pra encaminhar um e-mail, coisa pouca.

Eis que hoje, para minha desgraça infinita alegria, ele finalmente lembrou-se da ecxistência de moi! Chegou aqui todo serelepe e, com um arzinho de ironia (que não cai bem num chefinho, convenhamos, ironia é coisa de subordinado. Não?) disse que acredita que o meu silêncio signifique que estou resolvendo todas as minhas pendências (ah, sempre as malditas pendências) e que vou entregar tudo pronto amanhã. Oi? Vontadinha de perguntar: e em Papai Noel, acredita também?

Ocorre que amanhã é meu derradeiro dia de senzala trabalho antes da alforria das férias. Duas semaninhas tão esperadas em que ficarei curtindo a vida adoidado arrumando a casa, lavando, passando, tirando pó, organizando, dando retoques na pintura das paredes riscadas pela chegada dos móveis, coisas do gênero.

Entã, vejam só, amigos, que loucura. Como uma mesma situaçã pode ensejar tão diferentes interpretações, não? Eu cá com minhas teclas ingenuamente acreditando que chefinho tinha resolvido me dar uma folga, afinal ele deve ter percebido pela profundidade das minhas olheiras que eu sou uma pessoa moribunda cansada de tanto trabalhar e à noite arrumar a casa e talz. Com a sensibilidade inerente ao espírito masculino, ele deve ter sentido que essa nova rotina pós-mudança com tantos detalhes a acertar, compras a fazer, coisas a arrumar, está cansativa demais. Por isso, esse homem benevolente estaria me poupando das atribulações ordinárias do trabalho.

Enquanto isso, na sala da justiça, chefinho estava esperando a conclusão daquelas tarefas chatinhas que se encontram sobre minha mesa desde o início da era cenozóica. Pessoinha impaciente, viu? Mas, como ele não é bobo nem nada, bem no fundo ele já sabia que eu não estava fazendo muito além daquele esforço hercúleo para manter as pálpebras abertas, e veio até aqui hoje fazer um terrorismo.

Claro que a tarde já está quase acabando, e que amanhã, além de todas as motherfucker pendências, preciso fazer o lançamento das horas trabalhadas no mês. Aqui por essas bandas, isso também é conhecido como pain in the ass (com sotaque britânico, bem bonito). Portanto, a coisa mais inteligente a fazer, qual é? Ahm? Dou-lhe uma... Dou-lhe duas... Dou-lhe três! Vendido para a senhora de chapéu na quarta fileira!

Ó-BE-VE-O: escrever um texto que, se não for a pérola que faltava para finalmente me render um prêmio Nobel da literatura (hipótese muito provável), pelo menos terá servido para me manter acordada por alguns minutos. Porque pior do que não resolver as stupid dumbshit goddamn motherfucker pendências, é ser flagrada dormindo pelo chefinho, né não?


Beijo, outro, tchau.