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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cuidando do meu nariz! Parte 2

Então, passados tantos anos, embora as lembranças torturantes da minha primeira ronoplastia ainda permaneçam vívidas em minha memória, resolvi que era chegada a hora de superar o trauma e buscar a realização daquele velho sonho de respirar. Minha colega de escritório tem uma amiga anestesista, que trabalha num hospital especializado em otorrinolaringologia. Essa pessoa fez uma listinha dos profissionais cujos pacientes têm os melhores resultados e saem mais satisfeitos com seus novos narizes.

Munida dessa lista de indicações, mirei nos dois primeiros. Um deles tinha agenda lotada pelos 2 meses seguintes e o outro não atende por convênio. Diante disso, considerei que a terceira colocação na lista não devia ser ruim. Marquei a consulta com o Dr. Medalha de Bronze.

O médico me pareceu confiável. Cara de caxias, estudioso, o que é um bom sinal num médico. Sempre asseverando que não queria ser anti-ético, deixou claro que a minha primeira cirurgia foi um horror. Achou absurdo eu ter tomado anestesia geral, a cirurgia ter demorado 3 horas, eu ter usado tampão, disse que além de o meu desvio de septo não ter sido corrigido, a situação foi agravada pela formação de cicatrizes grandes por dentro do nariz que impediam ainda mais a minha respiração. Afirmou ter certeza de que havia alguma espécie de enxerto na ponta do meu nariz, aquela que um dia foi a mais feia do mundo.

Marquei a cirurgia, fiz todos os exames necessários, consultei com o anestesista e voltei a consultar o otorrino 4 dias antes da data da operação. Conversamos sobre o pré e o pós operatório e recebi as recomendações necessárias. O médico fez mais um exame, ressaltando que a minha primeira cirurgia deixou meu nariz torto, mas que nisso ele não ia mexer. Perguntei então se não era possível corrigir também esse problema.

Esperava que a resposta fosse uma das alternativas a seguir: a) bem, isso implica numa correção estética, que seu plano não cobre, portanto vai lhe custar tantos milhões de reais; b) farei o possível, mas não posso prometer um resultado excelente porque é muito difícil corrigir uma cirurgia anterior; c) essa não é minha especialidade, então talvez você queira procurar outro médico.

Porém, o que ouvi foi: "Não, vamos só fazer você voltar a respirar. Depois você liga para o médico que te operou e diz que quer uma revisão". Ehm... Cuma? Ligar para o médico que o Sr. disse que destruiu meu nariz, depois de 10 anos, e dizer que quero a revisão dos 100.000 km? Evidentemente que se eu estivesse contente com o trabalho dele não haveria razão para estar buscando outro médico depois de uma década.

Mas ele estava irredutível: "Veja, é muito complicado mexer no trabalho de outro cirurgião... Vamos mexer só no septo, depois se você quiser arruma o resto". Sim, claro, posso muito bem tirar férias de novo, pagar instrumentação cirúrgica de novo, comprar remédios de novo, passar por duas cirurgias, dois períodos de recuperação, duas internações... E o Dr. assim concluiu: "Vamos fazer só isso, que assim eu fico mais tranquilo".

Bem, se é para deixar o médico tranquilo, faço qualquer coisa. Penso que seja obrigação de qualquer paciente consciente fazer tudo que estiver ao seu alcance para tranquilizar o médico que vai meter um bisturi no meio da sua face. A última coisa que queremos é ver essa pessoa nervosa, certo? Diante disso, resolvi tomar uma atitude que deixaria o Dr. Medalha de Bronze extremamente sossegado: desmarquei a cirurgia.

Imagina se chega um cliente em potencial ao meu escritório e conta que está sendo atendido por um advogado incompetente, que perdeu o prazo para protocolar um recurso, e que gostaria que eu assumisse a causa e fizesse o possível para reverter a situação. Eu olho para o cara e digo: "Olha, se você tiver alguma coisa mais fácil de ganhar, pode deixar que eu resolvo para você. Mas quanto a esse problema difícil, você liga para o irresponsável que está te representando no processo e diz que é pra ele continuar fazendo a mesma merda. Assim eu fico mais tranquila."

Marquei consulta então com os dois primeiros da lista, como devia ter feito antes. Um só tinha consulta para dali a duas semanas. O que não tem convênio, obviamente, tinha consulta para o dia seguinte. Esse médico me foi recomendado como o melhor em termos de estética. É um otorrino extremamente competente, professor e chefe do setor de Otorrinolaringologia da UFPR e, no que se refere à estética, foi definido pela anestesista que trabalha no hospital como um artista.

Eu sabia que pelo menos a consulta eu tinha condições de pagar. Além disso, o meu maravilhoso plano de saúde, que tenho graças ao emprego lindo do meu marido lindo, também cobre, ao menos parcialmente, procedimentos com médicos não conveniados. Então, valia a pena conferir se tinha jeito.

Já na consulta, concluí que o Dr. Marcos Mocellin era a escolha mais acertada. Não só pela experiência e pelas recomendações (várias outras pessoas também me garantiram que ele era excelente), mas pela confiança que ele passa, pelo modo atencioso e honesto que me atendeu. Explicou que realmente não seria fácil corrigir a primeira cirurgia, pois o tecido cicatrizado é fibroso, além de ele não saber o que iria encontrar ao abrir meu nariz. Também disse que aquilo na ponta parecia um enxerto.

Foi então que meu nariz ganhou o apelido (dado por mim) de Kinder Ovo, porque só ao abrir o Dr. Medalha de Ouro saberia o que tinha dentro. O Dr. Marcos disse, então, que não poderia me prometer o nariz mais lindo do mundo, pois o caso apresentava limitações próprias, mas que faria o melhor possível e, sem dúvida, melhoraria o aspecto estético e corrigiria totalmente a parte funcional. Era o que eu queria ouvir.

Ele explicou da dificuldade que é tentar corrigir o trabalho de outro profissional, porque é o nome dele que ficará associado ao resultado que eu tiver, e não do primeiro, que fez a bobagem. E é tão verdade que não cito aqui o nome do cirurgião que estragou meu nariz (que poderia pleitear uma indenização por danos morais seu eu fizesse isso, e eu prefiro não me arriscar), mas cito o do Dr. Marcos, que o consertou. Claro que só faço isso porque estou satisfeita com o resultado, que não é o nariz da Barbie (que nem combinaria com meu rosto), mas está de fato mais harmonioso e, o melhor, funcionando perfeitamente.

Após consulta do maridão ao setor responsável em sua empresa, descobrimos que o maravilhoso plano de saúde cobriria a maior parte do custo orçado para a cirurgia. Obviamente, marquei a operação para o primeiro dia em que o Dr. Marcos tinha horário disponível.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Cuidando do meu nariz!

Bem, queridos, estou de volta ao trabalho. Oi? Você não sabia que eu estava de férias? Sim, claro, estava ocupada demais fazendo nada para vir aqui e escrever que estava de férias. Mas agora acabou. 

Em sentido geral, pode-se dizer que voltar ao trabalho é uma coisa boa. Significa que sou um ser humano capaz e produtivo, que tenho uma ocupação, um meio honesto de obter uma contraprestação por meus serviços, possibilitando que eu pague minhas contas, adquira coisas que eu quero, realize sonhos, conquiste objetivos. Em sentido estrito, porém, significa apenas que em vez de estar de pijama embaixo das cobertas vendo Two and a half men estou com as mãos congelando no teclado, cheia de prazos a cumprir. Saco.

Essas minhas férias fugiram completamente à ideia glamourosa de viajar, escapar desse frio tenebroso, conhecer outros lugares, tomar marguerita no bar da piscina, aquela coisa básica. Tirei duas semanas para incorporar a sabedoria dos nossos irmãos ursos e hibernar. Passei tanto tempo deitada - dormindo, lendo, assistindo à TV ou comendo - que meu corpo está inteiro dolorido, ainda tentando se habituar novamente à posição vertical. 

Aproveitei também para fazer uma pequena intervenção cirúrgica em meu nariz, para realizar um velho sonho... Respirar. Ah, a alegria das pequenas coisas... 

Na verdade eu já fiz uma rinoplastia há 10 anos. Embora tenha melhorado um pouco o aspecto estético do meu nariz - que era simplesmente MEDONHO - a cirurgia não ajudou em nada na parte funcional. E graças à minha impossibilidade quase absoluta de respirar pelo nariz, com o tempo fui ganhando cada vez mais problemas: uma tosse constante, manchas nos dentes e até uma alteração progressiva da minha arcada dentária superior, prejudicando minha mordida. 

Mesmo assim, operar o nariz DE NOVO não foi uma decisão nada fácil, porque a primeira vez foi bastante traumatizante. Eu não sou de fazer drama à toa, suporto a dor com relativa facilidade e aquela nem foi a minha cirurgia mais difícil, mas acredite: eu sofri. 

Primeiro que o meu cirurgião era um poço de sensibilidade. Na primeira vez que me examinou, comentou com o médico residente ao seu lado: "Olha a ponta desse nariz! Sério, nunca vi uma ponta de nariz tão feia na minha vida!". E eu tipo: "Ahm, com licença, não quero incomodar, mas... Eu estou aqui."

Além disso, não sei se foi somente o fato de as técnicas cirúrgicas serem mais primitivas à época, se o meu nariz além de ter a ponta mais feia do mundo ainda era o mais difícil de operar do universo ou o cirurgião não era dos melhores, mas eu acordei da anestesia completamente desfigurada. Claro que eu não sabia disso, já que estava lentamente despertando de uma anestesia geral, e não tinha como entender porque as pessoas que tinham conversado comigo alegremente horas antes (outros pacientes que conheci enquanto esperava ir para o centro cirúrgico) me olhavam como se eu fosse uma estranha. "Devem estar bem loucos da anestesia", eu pensava.

Aí a enfermeira vinha, muito gentil, e enxugava com um chumaço de algodão as lágrimas que escorriam do meu olho direito. Nunca as do esquerdo. Quando consegui erguer a mão até os olhos descobri a razão: o que escorria do meu olho direito não eram lágrimas, mas sim sangue que saía do meu nariz e entrava no olho. Até que a gênia da enfermeira finalmente teve a ideia de reclinar um pouco a cama, de modo que o sangue escorresse só por baixo, a não por todas as partes.

Meu rosto estava inteiro inchado e cheio de hematomas. Até minhas gengivas e meu céu da boca incharam. Parecia que tinham tocado fogo em minha face e apagado com um tamanco holandês. De repente, um sopro de conforto em meio ao sofrimento: minha mãe surgiu na porta da sala, procurando por mim. Eu disse "oi", e ela continuou procurando por mim. Chamei, ela me olhou, e continuou procurando por mim. Eu estava ainda muito atordoada para entender a verdade: minha mãe não me reconhecia. Quase tive que lembrar de algum segredo só nosso para dizer e provar que eu era eu mesma. Quando finalmente ela se convenceu de que aquela figura disforme era sua filha, com sua voz doce, disse-me: "já volto" e foi lá fora desmaiar.

Os dias seguintes foram bem difíceis. Eu sentia dor o dia todo. Queria morrer quando as pessoas apareciam pra me visitar. Minha mãe dizia: "Mas como vou dizer para não virem?", e eu: "Dizendo! Fala que tenho uma doença infecciosa e mortal!". Mas minha mãe, presa às convenções sociais, achava falta de educação. Hoje me pergunto se ela não estava secretamente cobrando ingresso dos visitantes.

Depois de uns dias, voltei ao consultório do médico para tirar o tampão, forma moderna de tortura, consistente em pedaços quilométricos de gaze embebida em pomada, socada nas vias nasais até as proximidades do cerebelo. As secreções e o sangue tendem a ressecar dentro do nariz, fazendo a gaze aderir ao tecido em processo de cicatrização. Feito isso, num exercício extremo de sadismo, o algoz médico puxa a gaze com uma pinça, descolando pedaços da alma do paciente no processo.

Findo o sofrimento, terminei com um nariz esquisito, torto, com uma ponta excessivamente arrebitada, e o melhor: respirando exclusivamente pela boca. Meu cirurgião, sempre sensível aos anseios da alma feminina, concluiu: "Não ficou dos 10 mais bonitos, mas, comparado ao que era, acho que está ótimo!".

Agora aposto que você entende porque demorei mais de 10 anos para reunir toda coragem necessária para enfrentar a faca de novo. 

Bem, como disse, estou de volta ao trabalho, o que me impede de passar o resto do dia escrevendo no meu blog. Sim, eu sei, trabalhar é super inconveniente. Vou almoçar agora, e amanhã ou depois eu volto para contar o restante da aventura.