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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Das coisas que aprendo dançando


Ao assistir a um espetáculo de dança, são raras as pessoas que pensam em todo o trabalho por trás dos bastidores. Exceto aquelas diretamente envolvidas com a produção, ou que também trabalham na área artística, o público em geral nota somente o que os sentidos da visão e da audição lhe permitem: a sintonia e a sincronia entre as bailarinas e os bailarinos, a beleza dos trajes, o cenário, a iluminação, a música. A leveza dos gestos, a precisão dos movimentos.

Para que tudo isso possa acontecer, no entanto, é necessário um longo e árduo trabalho de alguém. Dias e noites dedicados ao planejamento e à execução de cada passo a ser dado no palco. Alguém que escolhe cada música, desenha com cuidado cada coreografia, lembrando detalhes como a altura de cada bailarina, a fim de definir a posição ideal de todas na apresentação.

Alguém que ensina cada movimento, que observa atentamente os ensaios repetidos à exaustão e corrige os erros com carinho. Alguém que não cobra um centavo pelos finais de semana e dias extras de trabalho para que tudo saia como esperado. Alguém que exige de si a perfeição e não poupa esforços para atingir o resultado almejado. Alguém que continua sempre estudando e aprendendo mais, para poder ensinar o melhor a seus alunos. Alguém que sempre tanta relevar, mas às vezes sofre com a falta de comprometimento de algumas pessoas. Alguém que sabe que é impossível agradar a todos, mas ainda assim se empenha para isso. Alguém que pode perder o sono, pode perder a voz, mas não perde a vontade de continuar.

Pode parecer que o objetivo desse trabalho seja simplesmente produzir um belo espetáculo, receber aplausos efusivos da plateia e uma série de elogios. Mas a verdade é que o resultado é visto no dia-a-dia: as doses de alegria acrescentadas à vida de muitas pessoas, o desenvolvimento pessoal de cada aluno, a superação de obstáculos, a certeza de que a dedicação, a perseverança e o amor são os ingredientes exatos para o sucesso.

Dedicar-se significa se entregar, oferecer seu tempo, seu esforço, desprender-se de si mesmo em favor do grupo, lembrando que cada um depende de todos, e todos dependem de cada um. Perseverar é resistir diante das dificuldades, e também ter a constância e a paciência necessárias para chegar a um propósito, pois nada se aprende sem tempo e esforço. E o amor é o entusiasmo, a força motriz, a energia que estimula a fazer tudo isso com um sorriso nos lábios. Essas coisas não se ensinam com palavras, mas o aluno atento aprende pelo exemplo do mestre.

Quando as cortinas se abrem, a música começa a tocar e a magia acontece sobre o palco, poucos são os olhos capazes de enxergar todo esse trabalho. Por isso, nunca é demais expressar o reconhecimento e a gratidão por alguém que segue tornando sonhos possíveis.

Shara, esse troféu é pra você!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Aos avulsos

Mais um 12 de junho se aproxima. Aos que acreditam que essa é mais uma data de estrito apelo comercial, informo que estão absolutamente certos. Em outros países, o equivalente ao nosso dia dos namorados é o 14 de fevereiro, dia de homenagem a São Valentim, que supostamente lutou contra as ordens de um imperador malvadão que havia proibido os casamentos na Idade Média.

O Valentine's Day coincide com a véspera das festas realizadas na Roma antiga em honra de Juno (deusa da mulher e do matrimônio, não a moça do filme) e de Pan (deus da natureza, não a rádio, nem os jogos). Uau, realmente surpreendente e raro que tenha surgido uma lenda sobre um santo católico milagroso e romântico justamente na data de um ritual pagão de fertilidade, não? Mas isso não vem ao caso.

Por falar em paganismo, no Brasil, o dia dos namorados foi ideia de um publicitário chamado João Dorio. A data foi escolhida por duas razões: a primeira é por ser véspera do dia de Santo Antônio, nosso popular casamenteiro. A segunda (e principal) é que o meio do ano costumava ser pobre para o comércio brasileiro. Do dia das mães (em maio) até o dia dos pais (em agosto), o povo não tinha nenhuma razão para movimentar a economia e demonstrar afeto através do consumismo desenfreado. Então coube aos nossos brilhantes publicitários popularizarem o conceito e transformarem a data em mais um momento de gastos obrigatórios.

Para quem está desacompanhado, essa época do ano é bastante propícia a depressão profunda, isolamento social, tentativas de suicídio, sensação de absoluta incompetência emocional e atitudes desesperadas. Destas últimas, destaco as mais comuns: telefonar para o(a) ex; dar uma chance a um(a) desconhecido(a) de perfil pouco promissor de alguma rede social na internet (Orkut, Facebook ou pior, ParPerfeito); cair em ciladas como encontros às escuras (seu amigo jura que você vai gostar da amiga super divertida da namorada dele, e ao chegar ao encontro você percebe que ele esqueceu de mencionar o bigode da moça); dentre outras.

Eu conheço várias pessoas maravilhosas que estão solteiras. Evidentemente, como todas as pessoas maravilhosas, essas também são bem humoradas, inteligentes, divertidas, lindas e super bem resolvidas. Mas eu sei bem como é chato estar só quando todo mundo parece ter achado a metade da laranja ou seja lá qual for a fruta do momento. Especialmente nessa época do ano, em que não há um único outdoor, comercial de TV ou estreia no cinema que poupe os solteiros da imagem de casais felizes e lindos (calma, gente, são só modelos, provavelmente eles nem se conheciam antes da sessão de fotos).

Se você, como meus maravilhosos amigos e amigas solteiros, está avulso nesse dia dos namorados, eu suplico: não se deixe levar pela amargura. Em primeiro lugar, repito o que você já está cansado de saber, mas eu sei que às vezes você ignora (been there, done that): estar acompanhado não é garantia de felicidade. Incontáveis casais continuam juntos após anos de agressões mútuas, sem proporcionar nada de bom um ao outro. Acredito mesmo que muitas pessoas sentem um prazer secreto em tornar miserável a vida de seu parceiro. O sentimento de posse torna inconcebível a ideia de deixar a pessoa ir embora e ser feliz. Pior ainda: ser feliz com outra pessoa.

Além disso, confie em mim quando eu digo que a facilidade para encontrar o par ideal é inversamente proporcional a quanto especial você é. Não, não estou falando isso pra encher sua bola. É sério! Pessoas superficiais, ordinárias, sem graça, simplórias encontram semelhantes com uma facilidade enorme. Óbvio, esse é o tipo mais abundante de ser humano.

Se você é uma pessoa decente, fiel a seus princípios, inteligente, bem educada, gentil, divertida, batalhadora e dona de mais uma série de predicados, já faz parte de um grupo bem mais seleto. Num mundão desse tamanho, nem sempre é fácil encontrar essa turma, toda espalhada.

Nem por isso você deve ceder à pressão das campanhas publicitárias, das suas tias e do universo todo que parece às vezes esfregar na sua cara que você é a única pessoa incapaz de arranjar alguém que preste. Não caia na tentação de afrouxar seus critérios pra encontrar alguém que se encaixe neles. Não vale a pena. Você merece mais.

Como eu disse aqui, depois de sofrer muito por ter deixado entrar na minha vida pessoas que nem de longe me mereciam, que não tinham sequer a capacidade de perceber o meu valor, decidi não mais  elastecer meus critérios ao ponto de deformar meus próprios sonhos. Algo me dizia que ainda encontraria alguém que não iria me desapontar. E eu estava quase completamente certa. Quase, porque encontrei alguém que não apenas se encaixa nos meus critérios, mas supera todas as minhas expectativas.

É essa sensação que eu desejo para todos os meus amigos e amigas maravilhosos e, ainda, solteiros.

Beijos!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Você já se apaixonou por alguém?

Talvez a pergunta pareça estúpida, mas minha curiosidade provém do fato de que eu, em 28 anos e 7 dias de vida, só me apaixonei por uma única pessoa. Se alguma das minhas amigas estiver lendo esse texto, certamente está achando que eu sofri uma grave amnésia ou que depois de tanto tempo sendo sincera, resolvi inovar virando uma mentirosa. Nenhuma coisa nem outra.

No passado, todas as vezes em que sorri ou chorei envolta em uma nova paixão, não era por uma pessoa real que eu suspirava, mas sim por uma pessoa ideal. Um ser idealizado não ultrapassa os limites de sua própria definição: uma ideia.

Construir a pessoa ideal não é difícil. Fiz isso tantas vezes que poderia até redigir a receita. 

Pessoa ideal
 
Você vai precisar: a) da soma das suas aspirações românticas; b) de imaginação; c) de carência a gosto.

Misture os ingredientes e derrame na forma de sua preferência. Pode ser aquele cara gato da academia que você nunca ouviu falar uma palavra além de bom dia, mas uma vez preenchido com o conteúdo ideal, vai se transformar imediatamente em alguém que você apresentaria com a mesma satisfação aos seus amigos, à sua família e aos seus colegas de trabalho. Culto, divertido, carinhoso, educado e bom de cama. Perfeito.

Pode ser também o vizinho novo, que você viu uma vez na garagem e outra no elevador. Você ouviu o porteiro chamá-lo de Doutor, então já passou a fantasiar com o dia em que ele a chamará para jantar, fascinado pelo seu sorriso encantador e ar de mistério. Obviamente, ele mesmo vai cozinhar, num dia em que não estiver de plantão - um oftalmologista, talvez? - e puder recebê-la em seu apartamento muito bem decorado. Apertará o play e a trilha sonora conterá todas as suas canções preferidas.

Mas pode ser alguém mais próximo. Talvez o cara com quem você está saindo. Ele faz questão de rachar a conta desde a primeira vez em que a convidou para jantar, mesmo tendo sido ele quem escolheu o local e até mesmo o vinho. Mas você nem pensa que ele talvez seja pão-duro. Com certeza ele valoriza a sua independência profissional e financeira. Um homem moderno. Você já descobriu duas ou três coisinhas que não condizem com informações que ele mesmo forneceu a respeito dele. Mas você deve ter se confundido, não é que ele tenha mentido. Ou talvez ele tenha aumentado um pouco as coisas só para impressioná-la, o que deve ser um bom sinal. Não?

É possível passar meses e mesmo anos amando uma pessoa ideal, sem perceber - ou evitando enxergar - que a pessoa real que dá vida aos movimentos de nosso personagem perfeito é absolutamente diferente do que gostaríamos. Eu já passei pela sensação numa relação de que quando é bom, é ótimo, mas quando é ruim, é a pior coisa do mundo. E depois de um tempo comecei a notar que havia muito mais momentos ruins do que os bons.

Analisando com mais cuidado, percebi que os numerosos momentos de infelicidade eram justamente aqueles em que eu entrava em contato com a pessoa real. Seus insuportáveis defeitos, suas faltas intoleráveis. Quem é essa pessoa?, eu pensava. Alguém capaz de me magoar, de não entender minhas melhores piadas, não segurar minha mão na rua? Alguém que tem ataques de ciúme, que troca minha companhia por outros programas, que não tem um abraço infinito? Quem é esse cara que inventou bobagens para me conquistar, que mentiu descaradamente, que subestimou minha inteligência? Quem é esse desconhecido que não apoia meus sonhos, que duvida da minha capacidade, que não sabe ser generoso?

Muitas vezes fechei meus olhos porque não queria ver. É triste admitir a derrota. É difícil reconhecer que investimos tanto numa ilusão. Mas nada mais infeliz e patético do que insistir no engano, enquanto a realidade grita desesperadamente para sair de dentro do pequeno baú em que se encontra acorrentada.

Um dia conheci um homem de verdade. Não havia nada além de verdade no modo como ele me olhava, nos sorrisos que me dedicava, mesmo antes que qualquer um de nós soubesse que o interesse era recíproco. Era tudo verdade no seu passado, na sua família, na sua vida. Só verdade preenchia nossos encontros, nossas conversas, nossa saudade, nossos desejos, nossos planos para o futuro. 

Eu logo me apaixonei. Não queria saber de mais ninguém, os casos pretéritos pareciam tão distantes que mal me lembrava de seus nomes, mesmo daqueles que ainda telefonavam e não eram atendidos. No dia em que nos beijamos pela primeira vez, senti que o tempo podia parar ali mesmo. O coração se dividia entre a ansiedade pelas delícias do porvir e o medo de que elas não viessem. Ele era tudo que eu queria.

Ele me atraía sob todos os aspectos: física, intelectual e afetivamente. Tratava-me com respeito e admiração, demonstrava o desejo mais intenso que já conheci, olhava para mim como se eu fosse a mulher mais linda do mundo. Tinha o maior interesse em desvendar cada característica minha e me fazia rir. Devo confessar que senti medo de estar, mais uma vez, amando uma criação da minha mente fértil.

A certeza de estar apaixonada por uma pessoa real só veio quando descobri, satisfeita, que ele não é perfeito. Ele tem seus defeitos e às vezes erra. Jamais seria irresponsável comigo e com meus sentimentos, mas nem sempre sabe a forma certa de agir. E nada disso o torna menos apaixonante, menos amável. 

Reconhecer nele um ser humano e, portanto, sujeito a falhas, foi reconfortante. Felizmente ele não é perfeito, caso contrário, não existiria. E, se existisse, eu não o mereceria. Ele é apenas uma pessoa real, característica que, somada a todas as demais, torna-o apto a ocupar de modo vitalício o lugar de amor da minha vida.

Não preciso me refugiar num mar de fantasias, nem esperar eternamente por impossíveis mudanças de comportamento ou de caráter. A realidade é uma delícia! Momentos ruins são tão raros, tão pequenos, tão facilmente superáveis, que se perdem no tempo, no esquecimento. Os momentos de felicidade se sucedem com tanta naturalidade que não precisamos nos agarrar à lembrança de um deles com a esperança de que um dia retorne. 

Agora, pense de novo e me responda: quantas vezes você se apaixonou por uma pessoa real? Esse alguém que ocupa seu coração e seu pensamento hoje é de verdade ou pura imaginação? Se após um exame acurado o diagnóstico for ilusionite aguda, não se desespere, isso tem cura.

Talvez o tratamento exija apenas a aceitação das pessoas como são. Defeitos muitas vezes são o que fazem o charme de alguém. Além disso, todos passamos por algumas penas na vida que desenvolveram nossos calos. Ninguém está livre disso. Acrescentar uma dose de compaixão ao olhar e enxergar a situação como um todo pode nos fazer menos críticos e mais tolerantes.

Existem defeitos, porém, que não merecem ser suportados. Um cara que não a respeita, que não a trata como prioridade, que não se comove com seu sofrimento e não faz planos com você não merece esforço. Um homem que trai, que não é seu melhor amigo, que não deseja ardentemente fazê-la feliz é um desperdício de tempo. Se os defeitos dele constam numa lista de coisas abomináveis para você - não para mim, para suas amigas ou para sua mãe, mas para você -, não perca seu tempo tentando transformá-lo. Parta hoje mesmo em busca da realidade.

Ela pode parecer assustadora no começo, mas eu garanto que, enquanto o seu coração bater, você terá forças para enfrentá-la. Confie em mim. Não é que um dia você acorda e percebe que está vivendo seu sonho. A grande sacada é que, quando você aprende a amar alguém de verdade (começando por você mesma), com todas as dificuldades que isso implica, qualquer dia da realidade é mais gostoso que a mais bem elaborada de suas fantasias. Sonhar é bom, mas delícia mesmo é acordar.

Beijos!