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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Das coisas que aprendo dançando


Ao assistir a um espetáculo de dança, são raras as pessoas que pensam em todo o trabalho por trás dos bastidores. Exceto aquelas diretamente envolvidas com a produção, ou que também trabalham na área artística, o público em geral nota somente o que os sentidos da visão e da audição lhe permitem: a sintonia e a sincronia entre as bailarinas e os bailarinos, a beleza dos trajes, o cenário, a iluminação, a música. A leveza dos gestos, a precisão dos movimentos.

Para que tudo isso possa acontecer, no entanto, é necessário um longo e árduo trabalho de alguém. Dias e noites dedicados ao planejamento e à execução de cada passo a ser dado no palco. Alguém que escolhe cada música, desenha com cuidado cada coreografia, lembrando detalhes como a altura de cada bailarina, a fim de definir a posição ideal de todas na apresentação.

Alguém que ensina cada movimento, que observa atentamente os ensaios repetidos à exaustão e corrige os erros com carinho. Alguém que não cobra um centavo pelos finais de semana e dias extras de trabalho para que tudo saia como esperado. Alguém que exige de si a perfeição e não poupa esforços para atingir o resultado almejado. Alguém que continua sempre estudando e aprendendo mais, para poder ensinar o melhor a seus alunos. Alguém que sempre tanta relevar, mas às vezes sofre com a falta de comprometimento de algumas pessoas. Alguém que sabe que é impossível agradar a todos, mas ainda assim se empenha para isso. Alguém que pode perder o sono, pode perder a voz, mas não perde a vontade de continuar.

Pode parecer que o objetivo desse trabalho seja simplesmente produzir um belo espetáculo, receber aplausos efusivos da plateia e uma série de elogios. Mas a verdade é que o resultado é visto no dia-a-dia: as doses de alegria acrescentadas à vida de muitas pessoas, o desenvolvimento pessoal de cada aluno, a superação de obstáculos, a certeza de que a dedicação, a perseverança e o amor são os ingredientes exatos para o sucesso.

Dedicar-se significa se entregar, oferecer seu tempo, seu esforço, desprender-se de si mesmo em favor do grupo, lembrando que cada um depende de todos, e todos dependem de cada um. Perseverar é resistir diante das dificuldades, e também ter a constância e a paciência necessárias para chegar a um propósito, pois nada se aprende sem tempo e esforço. E o amor é o entusiasmo, a força motriz, a energia que estimula a fazer tudo isso com um sorriso nos lábios. Essas coisas não se ensinam com palavras, mas o aluno atento aprende pelo exemplo do mestre.

Quando as cortinas se abrem, a música começa a tocar e a magia acontece sobre o palco, poucos são os olhos capazes de enxergar todo esse trabalho. Por isso, nunca é demais expressar o reconhecimento e a gratidão por alguém que segue tornando sonhos possíveis.

Shara, esse troféu é pra você!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Hoje eu vi passarinho verde...

Foto daqui

"A expressão "viu passarinho verde" é empregada para aqueles que, sem motivo aparente, demonstram muita alegria. O verde é a cor da esperança e da paz. Mas o que o passarinho tem a ver com isso? De acordo com o folclorista Luís da Câmara Cascudo, no livro Locuções Tradicionais no Brasil, a tal ave era o periquito, muito usado para levar no bico mensagens trocadas por casais. Assim, avistar esse animal seria "identificar o alado pajem confidencial dos segredos". Há ainda uma lenda do século 19, segundo a qual as moças avisavam seus namorados do envio de cartas de amor colocando um periquito perto da grade da janela." (Fonte: Guia do Estudante)

Eu e o Dé não precisamos usar animais para trocar mensagens de amor. As declarações são feitas ao vivo, pelo menos três vezes ao dia (ao acordar, as se despedir para ir ao trabalho, antes de dormir). Eventualmente, utilizamos um e-mail, um SMS. Cartões nas datas especiais. 

Nesse sentido, então, vivo "vendo passarinho verde". Nunca faltam motivos para sorrir.

Hoje pela manhã tive uma consulta médica com uma gastro. O Dé me deixou lá e foi de carro até nosso estacionamento. Como o consultório é pertinho do escritório (umas 5 ou 6 quadras), fui caminhando até lá. Escolhi um caminho passando por ruas em que não costumo andar com frequência. Ao dobrar uma esquina, vi algumas cerejeiras carregadas de flores cor-de-rosa e - ai, que romântica - suspirei. 

Ouvi já de longe uma algazarra de passarinhos e, ao me aproximar, vi que a cerejeira maior não estava carregada somente de flores, mas também de periquitos bem verdinhos! Nunca vi tantos reunidos! Nem em vitrine de aviário, onde se vê um montão de passarinhos apinhados em gaiolas tristes. Coisa que me causa a maior depressão e sempre me faz cantar mentalmente a música do Wando: "Choooora coração... Passarinho na gaiola, feito gente  na prisão"...

A visão que tive nessa manhã não teve nada de melancólica, era só alegria. Não tinha um galho da árvore sem um passarinho gritando faceiro. Pense numa pessoa que lamentou estar sem a máquina fotográfica. Tudo que pude fazer foi ficar ali parada por uns minutinhos admirando aquela cena. E não fui a única! Mais dois transeuntes pararam para ver os bichinhos na árvore.

Não sei se aquelas pessoas estavam apaixonadas, se elas também recebem declarações de amor diárias. Mas desconfio de que ver uma cerejeira florida lotada de periquitos verdes, bem no centro da cidade, notar a cantoria de pássaros em meio ao barulho de carros, buzinas, gentes apressadas, tenha sido motivo suficiente pra deixar aquelas pessoas com um sorriso bobo alegre, igualzinho ao meu. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Nem mesmo o céu, nem as estrelas...

Hoje é o dia dele. Eu queria escrever um texto bem lindo, dizendo tudo que sinto, mas acabaria soando como Roberto Carlos... "Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você".

Eu queria explicar o quanto a presença dele na minha vida ameniza as dores, eleva à enésima potência as alegrias, enche de razão e significado cada momento da minha existência. Queria dizer que por causa dele eu me esforço pra me aperfeiçoar cada vez mais, só pra garantir que eu continue merecendo essa pessoa maravilhosa ao meu lado.

Gostaria de saber um jeito de demonstrar justamente isso: não é só o homem que ele é que me seduz, mas o ser humano fantástico que me fascina. Sua bondade, seu caráter, seus valores. É o fato de estar sempre disposto a estender a mão a quem precisa, de ligar todo dia para acalmar o coração da mãe saudosa, de sair de casa no domingo à noite pra arrumar as lâmpadas que não estão funcionando na casa da sogra.

É o fato de sempre, antes de deitar, perguntar se quero algo da cozinha, uma água, um chazinho. É aquela carinha que ele faz quando eu dou bronca porque ele está descalço no piso gelado. É a empolgação quando tem uma ideia que pode revolucionar a rotina no trabalho, a dedicação quando se envolve num projeto profissional, a confiança que se pode depositar nele sem medo.

Queria saber porque me dá esse nó na garganta toda vez que penso em tudo que ele é. Porque ele me emociona, porque o amor que sinto por ele transborda, porque não posso nem imaginar minha vida sem ele. Porque descobri o significado da felicidade quando nossos destinos se entrelaçaram, e não tenho vergonha de ser brega e de citar Roberto Carlos.

Se ao menos eu soubesse o jeito de dizer que o amo mais do que tudo e que estou disposta a passar todos os meus dias me dedicando ao que mais me alegra nessa vida: fazê-lo feliz... 

Quando eu descobrir uma forma de dizer isso tudo, prometo escrever um texto bem lindo, em homenagem ao amor da minha vida, que hoje faz aniversário. 

♥

domingo, 5 de junho de 2011

Cecílios

Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Eu, sinceramente, não. Engraçado como às vezes estamos desatentos no momento em que algo muito importante está prestes a acontecer em nossa vida, como o início de uma grande amizade. Sei que foi em 2005. Ou seja, foi só no ano em que fez 21 anos que você finalmente ganhou o apelido que ressalta o que talvez seja sua característica mais evidente, desde criancinha. 

Lembro que fazia pouco tempo que a gente se conhecia, mas eu já sentia que você seria uma grande parceira de aventuras. Comprovei isso quando liguei numa terça-feira à noite e perguntei: “E aí, vai fazer alguma hoje?”, e a sua resposta foi: “Não ia”.

Naquela noite, seu Peugeotzinho foi brutalmente atingido por um canteiro descontrolado. Quase nos afogamos numa tempestade torrencial, viramos piada pra polícia, sentimos medo de bandidos imaginários, tentamos inutilmente descobrir onde ficava o macaco e como o estepe saía debaixo do carro. Você respondeu à clássica pergunta: “Onde você está, minha filha?”, com a expressão imortalizada pela Lu: “Tokaoki”. Eu me preocupei: “Ci, a gente nem bebeu nada... Seus pais não vão pensar que você estava bêbada?”, e você me tranquilizou: “Não, eles sabem que eu sou retardada mesmo”.

Lembra daquele carnaval em que você me salvou do ataque do Monstro da Piscina? E de madrugada quando a gente tinha ataques de riso incontroláveis e tinha que ficar na sacada pra não acordar as pessoas do nosso quarto? E quando eu não aguentava mais ficar acordada, mas você ainda queria “só tomar um gole com a Adri”?

E quando eu ficava no bar da facul esperando você voltar depois de se livrar do Roço Mor, fingindo que ia pra casa? E aquela noite no “Aos Democratas”, tempos depois, quando uma bêbada desconhecida chegou na nossa roda perguntando: “Qual de vocês é a Ciça?” E então confirmamos que as aparências enganam, e descobrimos que o grande Roço acumulava o título de canalha também.

Houve também um carnaval em que você foi eleita a mulher mais elegante de Jurerê Internacional. Graças a isso, fomos convidadas para a festa dos ricaços e passeamos de Porshe. Tivemos ainda um momento mágico de prática de Yoga na grama em frente de casa. Sem a sua ajuda, eu jamais teria conseguido fazer a invertida sobre a cabeça e permanecer naquela posição por quase 3 segundos e meio.

E naquele outro carnaval, quando estávamos brigadas e fomos obrigadas a fazer as pazes porque todas as outras pessoas do mundo nos abandonaram? Graças a isso, pudemos curtir aquele showzaço do Tiesto e cantar juntas “In the dark”, e passar raiva juntas quando furtaram sua carteira.

Lembra daquele baile de máscaras que fomos praticamente só nós duas e mais um monte de homens lindos, porém todos gays? Naquela noite descobrimos que mais vale um homem feio na mão que dois lindos se beijando.

E quando finalmente tivemos a oportunidade de ser colegas de turma? Estudando para a prova da OAB no Luiz Carlos, reparando nos vícios de linguagem dos professores e depois não suportando mais ouvi-los? Quantos quilos engordamos matando aula de Tributário no Mc Donalds? 

E aquela noite fria na sua casa, quando alguém deu a ideia de pularmos na piscina aquecida com as placas de captação solar que, claro, funcionam super bem em dias nublados? Quem poderia ser a única pessoa que caiu nessa conversa, vestiu um biquíni seu (sério, como que a parte de cima coube???) e arrancou cinco bifes de cada perna fazendo uma depilação a seco com uma gilete velha que encontrou no seu banheiro?

Quando viramos colegas de trabalho, durante um tempo você me dava carona pra ir para o escritório. O café da manhã das campeãs? Marlboro Light no carro, atrasadas e em jejum. E à tarde uma de nós enviava o convite pelo sistema interno de mensagens: “Pigas?”. Em poucos minutos estávamos na Dalva. Muitas vezes, era o momento também de uma coxinha ou, no seu caso, um risóles de carne. Um bombom de morango, de sobremesa. Como eu sempre me preocupei com a forma física – cof – a minha coca era light. Você passava o resto da tarde se contorcendo de dor de estômago e, no dia seguinte: “Hum... Me vê um risóles e uma coca normal”.

A vida de advogadas nem sempre foi fácil. Talvez por isso tenhamos investido nosso talento em outras áreas, como a de dançarinas, compositoras e cantoras. Como dançarinas, fizemos relativo sucesso. Já na esfera musical, infelizmente, nosso single “Sou lá de Campo Largo da Roseira” não emplacou. Uma pena.

Lembra das maratonas de The OC? E aqueles jogos de adivinhar de que seriado era cada música? E a sua surpresa ao descobrir que o tema de abertura de CSI dizia “Who are you?” e não somente “uuuuuaaaiuuuuuuuuu-u-u-u-u”? Quantos momentos que vivemos nos lembraram automaticamente de episódios de Friends?

Uma coisa que parece ter mudado muito nesse nosso tempo de convivência é o tamanho de nossos estômagos. Hoje passamos mal com 3 pedaços de pizza. Lembra o quanto causávamos prejuízo nos rodízios? Deixávamos os garçons assustados e nossas calças quase estourando. E nos mexicanos? Não sobrava nem o aroma de sour cream quando pedíamos Ultimate Nachos. Lembra quando você resolveu morder aquela pimenta gigante que vinha de enfeite em cima? Todo o chope do Zapata não seria suficiente pra apagar o fogo.

E quando chegávamos ao Taj faltando 2 minutos pra acabar o horário do double drink e/ou da comida japonesa com 50% de desconto? A gente já sentava fazendo o pedido. “Não precisa trazer o cardápio, anota aí, rápido: um combinado para duas pessoas, uma porção de hot philadelphia, uma caipira de kiwi, uma de morango, uma de abacaxi, uma...” O garçom interrompia: “Moça, mas você sabe que vai vir duas de cada, né?” Eu já irritada: “Por que você não está anotando???”

Em diferentes épocas batemos cartão em diferentes lugares: no John Bull, na Pulse, no Yankee, no Taj, na Eon, na Lique, na Woods, no Crossroads... Numa noite que fomos ao Yankee, depois de uma quarta-feira difícil no escritório, resolvemos comprar uma garrafa de vodka só pra nós duas. Foram muitos carnavais, Feijucas, churras, esquentas na Lê, Barrocas, Hot Valentines, BVTs, chopadas, festas de aniversário, quartas Fischers, bailes de formatura e, finalmente, casamentos...

Um dia resolvemos voltar a ser colegas de classe e nos matriculamos no curso preparatório para o concurso da ABIN. Viva o Luiz Carlos de novo. Você deve ter ido pra aula só umas duas vezes. Numa delas, na hora do intervalo, apresentou-me para um amigo seu da época do colégio. Você estava distraída e não ouviu os sininhos tocarem. Sem sequer imaginar, você me apresentou naquele momento ao amor da minha vida.

Trocamos incontáveis confidências e, até hoje, considero você uma das melhores guardiãs para os meus segredos, assim como os seus ficarão comigo pra sempre. Passamos inúmeras horas elaborando teorias mirabolantes sobre o que mesmo? O comportamento masculino, o futuro da humanidade, o sentido da vida, fatos aleatórios, efeito borboleta e tudo ao mesmo tempo agora.

Num momento infeliz, uma divergência de opiniões acabou nos afastando. Minha noção de amizade e lealdade me impelia a me posicionar radicalmente contra qualquer coisa ou pessoa que fizesse você sofrer. A sua noção de amizade dizia que eu tinha que apoiar incondicionalmente qualquer escolha sua.

Hoje vejo que nosso problema era um daqueles que só se resolvem com o tempo e, claro, a maturidade que vem com ele. Eu precisei de tempo para perceber que, quando você me contava que alguém fez você sofrer, você não queria que eu a protegesse da maldade alheia – só precisava mesmo desabafar. Demorei pra entender que, enquanto eu condenava quem a feria, você sentia que era você mesma que eu estava condenando.

Você também precisou de tempo para entender que qualquer coisa que eu tenha feito ou dito jamais significou que eu não estivesse do seu lado: era apenas o meu jeito tosco de dizer que eu queria o melhor pra você. Como ainda quero.

Sim, nós somos um pouco lerdas pra entender as coisas. O importante é que conseguimos! Não tenho nem como descrever o quanto você me fez falta durante esse tempo em que estivemos distantes e o quanto faço questão da sua presença na minha vida. Espero que saiba e jamais duvide disso: você é uma das minhas pessoas preferidas no mundo, e eu nem gosto de muitas. Como diria Pink (aprendi com a Lê que pop music can be wise), pretty pretty please, if you ever ever feel like you're less than fuckin perfect... You're fuckin perfect.

A você, minha amiga linda, desejo apenas tudo de melhor. Ao mundo, que a sorte de ter você vivendo nele se prolongue por muito mais tempo que esses 27 anos de alegria.

♥

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A Maria que eu conheço bem...

Quando eu era criança, acreditava que minha mãe estava sempre certa, tinha todas as respostas, sabia de tudo. Nem mesmo a professora da escola (naquela época em que tinha uma única professora por ano) era capaz de superar a sabedoria materna.

Na adolescência, os conflitos surgiram. Adotei firmemente a certeza de que minha mãe estava sempre errada, não sabia de nada e, pior, estava sempre contra mim. Implicava com minhas amigas (mesmo sem saber que elas fumavam maconha! Pura perseguição!), não me deixava fazer o que eu queria (como ir a uma festa na segunda-feira à noite e faltar à aula na terça de manhã) e fazia exigências absurdas ("chegue na escola na hora", "estude", "lave a louça", um horror...).

Os anos passaram e eu ganhei um tantinho de maturidade. E, com ela, veio uma surpreendente realidade: minha mãe não tem todas as respostas, mas conhece algumas. Não está sempre certa, porque é humana. Mas em qualquer hipótese, ela nunca está contra mim. Parece sim uma obviedade, considerando que ela é a pessoa que me ama há mais tempo nessa vida, mas eu não fui sempre tão esperta como sou hoje. 

Hoje é aniversário da Dona Maria. Essa minha grande amiga, companheira, minha maior fã, de quem eu sou fã também. Ela que inventa receitas veganas pra eu poder comer na casa dela e sempre prepara um potinho pra eu levar um pouco pra casa. Sempre. Nem que seja um feijãozinho. "Qualquer coisa você congela".

Quando vivíamos na mesma casa, não importava a hora que eu chegasse, ela sempre inventava uma coisinha gostosa pra eu comer. Eu abria a geladeira e dizia: "ih, não tem nada". Ela ia lá e fazia a sua mágica de transformar nada em janta. Aqueles 3 tuperwares contendo 2 pedaços de brócolis, 3 colheres de sopa de milho verde e meia xícara de arroz integral viravam uma torta deliciosa. Como pode???

Ela ouve meus desabafos e me liga pra jogar conversa fora. Adotou minha cachorra quando eu saí de casa. Sempre soube, só de olhar, quando meus ex-namorados não prestavam. E adorou o Dé assim que o conheceu.

Temos nossas diferenças e também muitas semelhanças. Nunca consegui aprender o tricô e o crochê. Mas aprendi a ter um bom caráter, a prezar as boas amizades, a valorizar as pessoas pelo que são, não pelo que têm. Aprendi a gostar de cozinhar, a inventar receitas no "olhômetro" e a demonstrar afeto preparando refeições...

Consigo vê-la sob diversos aspectos. Conheço a Dra. Maria, psicóloga; conheço a Maria Arteira sempre inventando moda e criando arte; conheço a Maria engajada, que luta pelas causas em que acredita; conheço a Maria amiga fiel e zelosa; conheço a Maria que desperta paixões com seus olhos azuis... São muitas e muitas Marias numa só. Mas, por razões óbvias, a que eu conheço melhor e da qual posso falar com propriedade é a Maria mãe, de mim e do Gabriel, que ela sempre faz questão de dizer pra todo mundo que são seus dois grandes feitos nessa vida. É através dos meus olhos de filha que a admiro profundamente. 

Mãe, feliz aniversário! Parabéns por ser quem você é! Agradeço pela dádiva de ser sua filha e desejo a você saúde, sucesso, amor, paz, serenidade... E que a cada dia você encontre mais e mais motivos para ser MUITO FELIZ! Amo você!

Beijos,

Oki

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O dia perfeito

Sendo hoje o dia do mundialmente celebrado São Valentim (o casamenteiro dos gringos, que deve ser brother do nosso Santo Antônio), creio que seja um bom momento para fazer o relato a seguir.

6 de janeiro de 2011. Despertamos muito cedo, por volta de 6h30 da manhã, mas o sol já ia alto. Os dias começam cedo e terminam tarde em Mendoza, Argentina. Levantamos, tomamos café da manhã e nos arrumamos em silêncio, para não acordar nossos anfitriões Alejandro e Noelia.

A previsão de chegada da van que nos conduziria pelo passeio de Alta Montaña era em torno das 8h da manhã, mas ela chegou somente depois das 8h30, porque fomos os últimos passageiros a serem apanhados. Nossa guia, Carolina, pronunciava um espanhol muito claro, de fácil compreensão.

A estrada que leva ao circuito de Alta Montaña, que acompanha o curso do Rio Mendoza,  impressiona por sua qualidade e, principalmente, pela beleza das paisagens, com a fantástica vista do Cordão de Prata. Logo que termina a linda região vitivinícola de Luján de Cuyo, chegamos à primeira parada do passeio, ainda na pré-cordilheira: Potrerillos. Trata-se de um pequeno povoado, com residências de fim-de-semana de pessoas desafortunadas de Mendoza. Dali se avista o Dique Potrerillos, um lago artificial que abastece a cidade e impressiona pelo tom de intenso azul.
Puente Histórico de Picheuta

Mais adiante, encontra-se Uspallata, uma região multicolorida, com diferentes formações montanhosas. Nesse vale mendocino foi filmado o filme Sete anos no Tibet. Após, uma parada na histórica Puente de Picheuta, que atravessa o rio gelado e cristalino de mesmo nome, onde abasteci a garrafinha de água. Após passar pelo povoado de Punta de Vacas (onde tem início uma das rotas de ascenso ao Aconcágua, la Ruta de los Polacos), paramos em Los Penitentes, onde subimos o teleférico. Uma maravilhosa vista panorâmica da região nos esperava lá em cima. 

Mirador del Aconcágua
Nesta parte do caminho, somos constantemente acompanhados pelo Aconcágua, a maior montanha do continente americano, com 6.962 metros de altitude (e crescendo um pouquinho ainda a cada ano), cuja melhor vista se tem desde o Mirador del Aconcágua. De origem quechua, a palavra Aconcágua significa "sentinela de pedra". Foi nesse lugar mágico, diante dos olhos vigilantes do gigante, que o Dé fez a maior surpresa da viagem - e talvez a maior e melhor da minha vida até hoje: ajoelhou-se diante de mim, tirou do bolso um par de alianças e me pediu em casamento.

Só me lembro de ter sentido seu coração tão acelerado uma vez antes: no dia em que me disse pela primeira vez que me amava. Meu coração acompanhava o dele, em ritmo e emoção. O pedido foi perfeito, do jeito que eu esperava, embora eu nunca tenha explicado a ele o jeito certo de me pedir em casamento. Existem coisas que uma mulher não pode explicar nem pedir a um homem, sob pena de o gesto perder seu valor. É como dizer: "por favor, compre flores para mim". Não tem a mesma graça.

Pois bem. Sempre considerei "quer casar comigo?" como uma pergunta, e não um pedido. Na adolescência vi uma peça de teatro em que um personagem dizia isso. Quando um homem deseja ter uma mulher ao seu lado por toda sua vida, ele deve pedir e não perguntar se ela quer. São coisas bem diferentes.

E apesar de eu jamais ter comentado isso com o Dé, ele acertou. Não bastasse o efeito surpresa + romance, acertou no jeito de pedir. Disse que me ama, que quer me fazer feliz por toda minha vida e pediu: "casa comigo". A resposta ao pedido era evidente, mas fiz questão de pronunciá-la, com a voz tomada de emoção: "sim, é claro que eu caso".

Daquele momento em diante, o passeio, que já era lindo, ficou ainda mais especial. Cada uma daquelas paisagens, emolduradas pelo céu azul, parecia um presente para nós. Passando a vila de Las Cuevas e antes de chegar ao túnel internacional que leva ao Chile, a van percorre uma rota que chega ao Cristo Redentor, situado a 4.000 metros de altura. 

Cerro Cristo Redentor - destaque para as alianças...
Metade do monumento encontra-se em território argentino e a outra metade em solo chileno. Foi erguido para celebrar a paz e a fraternidade entre os dois povos. Nesse local, tiramos nossa primeira foto como noivos, quase sendo carregados pelo forte vento.

Na volta, paramos na Puente del Inca, uma formação natural rochosa sobre águas termais. Ali há também diversos vendedores de artesanato, além de um restaurante onde almoçamos antes de retornar a Mendoza. 

Ao chegar, dirigimo-nos ao prédio da Prefeitura onde, justo naquela noite, haveria um evento cultural de entrada gratuita. O terraço do prédio - Terraza Jardín Mirador - oferece uma vista panorâmica da cidade, além de possuir pequenas amostras das plantas da região (daí o nome Jardín Mirador). Ali acontece, nas quintas-feiras de verão, o espetáculo, patrocinado pela Prefeitura, chamado Música y Vino en las Alturas.

X-Teléfono
Naquela noite, o show era da banda X-Teléfono, de San Rafael, na província de Mendoza, que toca  flamenco-pop-rock. Muito bom, especialmente ao vivo. O vinho servido - também gratuitamente - foi um premiado e delicioso Malbec produzido na região.

Já passava das 21h quando o sol se pôs. Assistimos ao entardecer ao som de X-Teléfono, degustando um vinho maravilhoso, em meio ao simpaticíssimo e acolhedor povo mendocino. O final perfeito para um dia perfeito.

Na volta para a casa de nossos hosts, caminhamos tranquilos pelas ruas, onde muita gente celebrava ainda o Dia de Reis. Apresentações pelas ruas, pessoas conversando nas praças, crianças brincando. No ar, toda uma sensação de que a vida vale a pena. Apesar do cansaço, não pudemos ir dormir sem antes passar algum tempo conversando com nossos amigos Alejandro e Noelia, que tornaram nossos dias em Mendoza ainda mais especiais.

E assim, depois de um ano e um mês vivendo juntos, compartilhando não somente o mesmo teto, as contas, as responsabilidades, mas também a indizível felicidade de viver ao lado de quem amamos, o Dé e eu estamos noivos! E o namorido, portanto, foi promovido a noivorido.

♥

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

The way I am


Sempre me disseram como me comportar. Não fale de boca cheia, mastigue de boca fechada, cruze as pernas ao sentar, fale baixo, não interrompa quando alguém estiver falando. A soma de anos à minha idade não diminuiu o número de instruções, cada vez mais complexas. Estude para as provas, não use drogas, não ande em más companhias, não banque a adulta, não se faça de criança, abaixe o volume do som, não faça sexo, mas use camisinha. 

Cresci, aprendi a dirigir, fiz faculdade, arranjei emprego, meus quatro terceiros molares (sisos) nasceram, mas continuei ouvindo conselhos não solicitados sobre quem e como eu deveria ser. Não vote em tal partido, não faça sexo antes do terceiro encontro, não seja sarcástica, não demonstre interesse por quem você está interessada.

Ouvi incontáveis dicas de como eu poderia ser uma pessoa melhor. Nunca faltou gente para apontar minhas falhas, meus vícios, minhas imperfeições. Sempre houve quem tentasse me convencer de que eu devia mudar muitas características minhas, mesmo algumas das quais eu mais gostava, caso contrário não seria _________________ [preencha a lacuna com o adjetivo que preferir: feliz, amada, bem-sucedida, respeitada, reconhecida...].

Um dia conheci alguém que não me diz o que fazer e não me pede para mudar. Não me cobra resultados, não exige que eu me adapte, não critica meu jeito de ser. Lança-me diariamente olhares de admiração, respeito, carinho, paixão. 

Nunca ouvi dele que minhas piadas estragam nossos momentos românticos. Ele se diverte. E depois de cada gargalhada ouço um sonoro: eu te amo! Ele apoia minhas decisões, participa dos meus planos e está totalmente inserido nos meus sonhos. Reconhece as minhas virtudes, inclusive aquelas que ninguém antes havia se interessado em enxergar. 

Não sei se um dia alguém já quis que ele mudasse alguma das características que eu amo, mas fico feliz que ele seja exatamente como é, e que me ame exatamente como sou. Isso me faz pensar como todos podemos ser perfeitos, dependendo de quem é o crítico da obra.

Hoje faz dois anos que eu tenho um amor perfeito, e só posso agradecer, sempre, por ele existir, por ser quem é e pela sorte que eu tenho... Porque ele me ama do jeito que eu sou. :)


domingo, 15 de agosto de 2010

Um amor antigo...

Quando eu era criança, vivia pedindo coisas para minha mãe. Uma Lu Patinadora, o carro da Barbie, um Pense Bem... Não ganhei nenhuma dessas coisas, mas tive uma bicicleta Caloi Cecizinha azul (o hit entre as meninas era rosa, mas eu gostava era de azul) com cestinha, uma Amore, um Manequinho e dúzias de outras bonecas, que eram meu passatempo preferido. Minha mãe sempre fez questão de me ensinar que não era possível ter tudo. Ela trabalhava bastante para me dar tudo o que podia, mas não me transformou num monstrinho insaciável do consumismo.

Tinha uma coisa, no entanto, que eu pedia com mais frequência, e nunca desistia diante das negativas recorrentes. Eu queria um irmão. Minha mãe explicava que, para isso, precisava antes encontrar um pai para ele. Eu achava bobagem. Afinal, meu pai era uma figura quase inexistente na minha vida, e nós duas estávamos muito bem sozinhas, mas minha mãe não parecia se contentar com a minha lógica.

Eu já tinha 11 anos de idade quando finalmente ganhei o presente tão esperado: o Gabriel nasceu. Muita gente me perguntava se eu não sentia ciúmes, por ganhar um irmãozinho após reinar absoluta por mais de uma década como filha única. Eu sentia ciúmes, sim, do pequeno. Se dependesse de mim, ninguém mais o pegaria no colo além de mim. Tudo bem, eu o emprestava à minha mãe sem problemas, e até ao meu padrasto, afinal os dois detinham os direitos autorais. Mas as outras pessoas eram por demais inconvenientes.

Desde pequeno o Gabriel já era lindo e gentil. Quando tinha alguma guloseima, ele sempre fazia questão de guardar um pedaço para mim. Já eu preferia comer tudo e esconder a embalagem vazia - se ele não soubesse que o doce havia existido, não passaria vontade, certo? Cada um à sua maneira, sempre pensamos um no outro. 

O pobrezinho sofria muito nas minhas mãos quando eu resolvia dar surras de cócegas. Eu continuava até ele perder o fôlego ou dizer as palavras mágicas: "me acuda, Maria Papuda". Graças a essa prática, ele desenvolveu uma capacidade respiratória muito maior, e eu me tornei mestra imbatível na arte das cócegas.

O Gabriel sempre foi o defensor dos injustiçados. Na escola, conversava com o menino excluído por ser esquisitinho, não achava graça quando chamavam um mais delicado de viadinho e brigava com os guris que maltratavam o bolsista por ele ser pobre. Eu tentava ensiná-lo a se defender da violência dos truculentos, mas ele jamais teria coragem de machucar alguém. Então tive que me conformar. Afinal, eu também era do tipo que apanhava na escola, e sobrevivi sem maiores sequelas.

Ao longo de sua infância, meu irmão ganhou de mim diversos apelidos carinhosos, dentre os quais, um dos mais marcantes foi "pequeno semiletrado". Agora o menino está todo inteligente e estragou toda a graça para mim. Cabeção e suas variações (Cabeçote, Cabeça, Cabeçola, Cabeçudo), porém, seguem com força total. Quando minha mãe registrou o nome dele na agenda do celular como "Gabriel Cabeção" ficou claro que não tem mais volta.

Falando assim, pode parecer que eu fui (ou sou) uma irmã cruel. A verdade é que eu, pensando exclusivamente no bem do meu pequeno irmão, sempre fiz questão de prepará-lo para as adversidades que enfrentaria no mundo lá fora. 

Brincadeiras à parte, como a diferença de idade entre nós é bem grande, eu sempre fui muito protetora. Ainda hoje sou assim: se alguém faz alguma coisa contra mim, penso um milhão de vezes se vale o esforço de tomar uma atitude defensiva. Mas ai de quem mexer com meu irmãozinho! Viro bicho!

A primeira menina de quem ele gostou era uma monstra. Gordinha e muito maior do que ele, que era o mais baixinho da sala. Quando perguntei se não a achava grande demais para ele, respondeu: "não, ela é só uma cabeça maior que eu". Ah, bom, então tá. Depois, descobriu o gosto pelas orientais, e o coração passou a palpitar cada vez que via uma japonesinha.

Existe algo de diferente no amadurecimento de meninas e meninos. Elas crescem um pouquinho a cada dia, de forma gradual e harmoniosa. Eles não: desenvolvem umas partes antes das outras, esticam da noite para o dia, desafinam a voz por meses e passam por fases muito estranhas. Então é algo surpreendente para uma irmã mais velha quando, num dia qualquer, aquele garotinho franzino se transforma num homem lindo.

Hoje faz 17 anos que minha mãe trouxe ao mundo esse presente tão especial para todos que têm a sorte de conhecê-lo. Fisicamente, só foi mais lindo do que é hoje naquela época em que eu queria ter exclusividade de colo. Era um bebê tão fofo... Hoje é um gato! 

Além da beleza física, tem um coração de ouro. Continua gentil, atento às necessidades alheias, justo, honesto, sincero e cheio de amigos. Como homem da casa, cuida bem da nossa mãe. Como irmão, não poderia ser melhor. 

Tenho certeza de que vou conservar a mania de cuidar dele por toda nossa vida. Mesmo quando ele pensar que já sabe se virar sozinho. Esse cuidado de irmã mais velha não vem só de laços consanguíneos, vem do amor de quem já esperava por ele desde sempre.

Feliz aniversário, Cabeção! Amo você!

Beijos da irmã preferida.

Os homens da minha vida: Dé e Biel

terça-feira, 13 de julho de 2010

A vida é um espetáculo imperdível

Eu tinha cinco anos. Minha mãe, 29. Andávamos de mãos dadas no condomínio em que vivíamos, quando nos deparamos com duas irmãzinhas lindas, de cachos dourados e olhos claros, brincando no parquinho. Muito simpáticas, acolheram-me de imediato e ali teve início nossa amizade. A Lucie tinha quatro anos e a Julie tinha três.

A mãe delas, a Narli, era uma moça linda de 25 anos de idade. Assim como minha mãe, enfrentava o desafio de cuidar de seus rebentos com pouca ou nenhuma ajuda do pai. Claro que suprir as necessidades de duas é mais difícil do que de uma. Por isso a Narli trabalhava demais. Muitas vezes, as meninas ficavam lá em casa, enquanto a Narli fazia horas extras. Para nós, claro, era uma festa.

Minha mãe e a Narli logo se tornaram melhores amigas, irmãs, inseparáveis. Trabalharam na mesma empresa, deram força uma à outra, dividiram confidências, enxugaram lágrimas e deram muitas risadas juntas. Anos depois, a Narli teve mais uma menina, a Dani, e escolheu minha mãe para ser sua madrinha.

Com o passar do tempo, muita coisa aconteceu. Meu irmão nasceu, minha mãe casou e se separou, a Narli mudou de cidade mais de uma vez, a Julie teve uma menina, depois um menino, e mais uma menina. A Lucie teve uma menina também. E a Dani, há cerca de uma semana, deu à luz um garotinho lindo. Eu e o Dé compramos nossa casa e fomos morar juntos.

Cada uma das pessoas envolvidas nessa história vivenciou seus próprios dramas particulares. Todos nós sofremos revezes da vida que, em diversas situações, afastaram nossos caminhos.

Mas a amizade entre minha mãe e a Narli é daquelas que sobrevive ao tempo, à distância. E elas sempre se mantiveram próximas, de alguma maneira. Há uns dois meses, a Narli mandou um e-mail à minha mãe falando exatamente disso: do quanto era importante saber que, mesmo quando passavam algum tempo sem ter contato, a amizade delas continuava existindo, firme e forte.

Há cerca de um ano, a Narli se encontrava numa situação do tipo que costumamos classificar como “o fundo do poço”. Numa depressão profunda, desejando morrer, sem forças para dar um passo adiante. Minha mãe se fez presente e almejou ardentemente rever na amiga a figura batalhadora, alegre e cheia de vida de tempos atrás.

E ela ressurgiu. Redescobriu a vontade de viver. Reconciliou-se com as filhas amadas, fortaleceu os laços com os netos tão queridos. Atrevo-me a dizer que rejuvenesceu. Superou os medos, os traumas, os dramas. Passou a enxergar em cada instante uma oportunidade de ser e fazer feliz. Em suas palavras, refletia um amor imensurável pela família, por Deus e pela vida com que Ele a presenteou.

Impossível não fazer referência à famosa ave mitológica que renasce das cinzas, como lembrou sua primogênita Lucie, hoje, ao lado do caixão da mãe. “Minha mãe é como a Fênix”. Aos 48 anos, nossa querida Narli deixou nosso plano material, levada por uma fatalidade tão difícil de entender quanto de aceitar.

Em suas últimas horas de vida, buscou acalmar seus entes queridos, assegurando-lhes que ficaria bem, pois ainda tinha muito que viver. Declarou seu amor às filhas e aos netos diversas vezes. E repetiu uma frase que gostava de dizer: “a vida é um espetáculo imperdível”. Ela dizia que precisamos ter coragem de sair da plateia e subir ao palco.

Só quem sobe ao palco pode um dia sair de cena sob aplausos. Narli encerra o espetáculo no auge da peça, em seu momento mais glorioso. Assim, sua história não será recordada como tragédia, mas como um exemplo brilhante de superação. Sua lembrança, que hoje nos conduz às lágrimas, certamente será em breve motivo de sorrisos saudosos.

A maior homenagem que lhe podemos prestar é seguir a lição que ela mesma aprendeu com sofrimento, mas ensinou com amor: é preciso apaixonar-se pela vida. Viver sem medo, sorrir sem motivo, amar sem limites.

Mais uma vez, empresto as palavras da Lucie: “as cortinas se fecham aqui, para se abrir em outro lugar”. Siga em paz, querida. Foi uma grande alegria fazer parte de sua história, durante 23 anos da minha vida. Um dia a gente se encontra, em outros palcos por aí.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Aos avulsos

Mais um 12 de junho se aproxima. Aos que acreditam que essa é mais uma data de estrito apelo comercial, informo que estão absolutamente certos. Em outros países, o equivalente ao nosso dia dos namorados é o 14 de fevereiro, dia de homenagem a São Valentim, que supostamente lutou contra as ordens de um imperador malvadão que havia proibido os casamentos na Idade Média.

O Valentine's Day coincide com a véspera das festas realizadas na Roma antiga em honra de Juno (deusa da mulher e do matrimônio, não a moça do filme) e de Pan (deus da natureza, não a rádio, nem os jogos). Uau, realmente surpreendente e raro que tenha surgido uma lenda sobre um santo católico milagroso e romântico justamente na data de um ritual pagão de fertilidade, não? Mas isso não vem ao caso.

Por falar em paganismo, no Brasil, o dia dos namorados foi ideia de um publicitário chamado João Dorio. A data foi escolhida por duas razões: a primeira é por ser véspera do dia de Santo Antônio, nosso popular casamenteiro. A segunda (e principal) é que o meio do ano costumava ser pobre para o comércio brasileiro. Do dia das mães (em maio) até o dia dos pais (em agosto), o povo não tinha nenhuma razão para movimentar a economia e demonstrar afeto através do consumismo desenfreado. Então coube aos nossos brilhantes publicitários popularizarem o conceito e transformarem a data em mais um momento de gastos obrigatórios.

Para quem está desacompanhado, essa época do ano é bastante propícia a depressão profunda, isolamento social, tentativas de suicídio, sensação de absoluta incompetência emocional e atitudes desesperadas. Destas últimas, destaco as mais comuns: telefonar para o(a) ex; dar uma chance a um(a) desconhecido(a) de perfil pouco promissor de alguma rede social na internet (Orkut, Facebook ou pior, ParPerfeito); cair em ciladas como encontros às escuras (seu amigo jura que você vai gostar da amiga super divertida da namorada dele, e ao chegar ao encontro você percebe que ele esqueceu de mencionar o bigode da moça); dentre outras.

Eu conheço várias pessoas maravilhosas que estão solteiras. Evidentemente, como todas as pessoas maravilhosas, essas também são bem humoradas, inteligentes, divertidas, lindas e super bem resolvidas. Mas eu sei bem como é chato estar só quando todo mundo parece ter achado a metade da laranja ou seja lá qual for a fruta do momento. Especialmente nessa época do ano, em que não há um único outdoor, comercial de TV ou estreia no cinema que poupe os solteiros da imagem de casais felizes e lindos (calma, gente, são só modelos, provavelmente eles nem se conheciam antes da sessão de fotos).

Se você, como meus maravilhosos amigos e amigas solteiros, está avulso nesse dia dos namorados, eu suplico: não se deixe levar pela amargura. Em primeiro lugar, repito o que você já está cansado de saber, mas eu sei que às vezes você ignora (been there, done that): estar acompanhado não é garantia de felicidade. Incontáveis casais continuam juntos após anos de agressões mútuas, sem proporcionar nada de bom um ao outro. Acredito mesmo que muitas pessoas sentem um prazer secreto em tornar miserável a vida de seu parceiro. O sentimento de posse torna inconcebível a ideia de deixar a pessoa ir embora e ser feliz. Pior ainda: ser feliz com outra pessoa.

Além disso, confie em mim quando eu digo que a facilidade para encontrar o par ideal é inversamente proporcional a quanto especial você é. Não, não estou falando isso pra encher sua bola. É sério! Pessoas superficiais, ordinárias, sem graça, simplórias encontram semelhantes com uma facilidade enorme. Óbvio, esse é o tipo mais abundante de ser humano.

Se você é uma pessoa decente, fiel a seus princípios, inteligente, bem educada, gentil, divertida, batalhadora e dona de mais uma série de predicados, já faz parte de um grupo bem mais seleto. Num mundão desse tamanho, nem sempre é fácil encontrar essa turma, toda espalhada.

Nem por isso você deve ceder à pressão das campanhas publicitárias, das suas tias e do universo todo que parece às vezes esfregar na sua cara que você é a única pessoa incapaz de arranjar alguém que preste. Não caia na tentação de afrouxar seus critérios pra encontrar alguém que se encaixe neles. Não vale a pena. Você merece mais.

Como eu disse aqui, depois de sofrer muito por ter deixado entrar na minha vida pessoas que nem de longe me mereciam, que não tinham sequer a capacidade de perceber o meu valor, decidi não mais  elastecer meus critérios ao ponto de deformar meus próprios sonhos. Algo me dizia que ainda encontraria alguém que não iria me desapontar. E eu estava quase completamente certa. Quase, porque encontrei alguém que não apenas se encaixa nos meus critérios, mas supera todas as minhas expectativas.

É essa sensação que eu desejo para todos os meus amigos e amigas maravilhosos e, ainda, solteiros.

Beijos!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Você já se apaixonou por alguém?

Talvez a pergunta pareça estúpida, mas minha curiosidade provém do fato de que eu, em 28 anos e 7 dias de vida, só me apaixonei por uma única pessoa. Se alguma das minhas amigas estiver lendo esse texto, certamente está achando que eu sofri uma grave amnésia ou que depois de tanto tempo sendo sincera, resolvi inovar virando uma mentirosa. Nenhuma coisa nem outra.

No passado, todas as vezes em que sorri ou chorei envolta em uma nova paixão, não era por uma pessoa real que eu suspirava, mas sim por uma pessoa ideal. Um ser idealizado não ultrapassa os limites de sua própria definição: uma ideia.

Construir a pessoa ideal não é difícil. Fiz isso tantas vezes que poderia até redigir a receita. 

Pessoa ideal
 
Você vai precisar: a) da soma das suas aspirações românticas; b) de imaginação; c) de carência a gosto.

Misture os ingredientes e derrame na forma de sua preferência. Pode ser aquele cara gato da academia que você nunca ouviu falar uma palavra além de bom dia, mas uma vez preenchido com o conteúdo ideal, vai se transformar imediatamente em alguém que você apresentaria com a mesma satisfação aos seus amigos, à sua família e aos seus colegas de trabalho. Culto, divertido, carinhoso, educado e bom de cama. Perfeito.

Pode ser também o vizinho novo, que você viu uma vez na garagem e outra no elevador. Você ouviu o porteiro chamá-lo de Doutor, então já passou a fantasiar com o dia em que ele a chamará para jantar, fascinado pelo seu sorriso encantador e ar de mistério. Obviamente, ele mesmo vai cozinhar, num dia em que não estiver de plantão - um oftalmologista, talvez? - e puder recebê-la em seu apartamento muito bem decorado. Apertará o play e a trilha sonora conterá todas as suas canções preferidas.

Mas pode ser alguém mais próximo. Talvez o cara com quem você está saindo. Ele faz questão de rachar a conta desde a primeira vez em que a convidou para jantar, mesmo tendo sido ele quem escolheu o local e até mesmo o vinho. Mas você nem pensa que ele talvez seja pão-duro. Com certeza ele valoriza a sua independência profissional e financeira. Um homem moderno. Você já descobriu duas ou três coisinhas que não condizem com informações que ele mesmo forneceu a respeito dele. Mas você deve ter se confundido, não é que ele tenha mentido. Ou talvez ele tenha aumentado um pouco as coisas só para impressioná-la, o que deve ser um bom sinal. Não?

É possível passar meses e mesmo anos amando uma pessoa ideal, sem perceber - ou evitando enxergar - que a pessoa real que dá vida aos movimentos de nosso personagem perfeito é absolutamente diferente do que gostaríamos. Eu já passei pela sensação numa relação de que quando é bom, é ótimo, mas quando é ruim, é a pior coisa do mundo. E depois de um tempo comecei a notar que havia muito mais momentos ruins do que os bons.

Analisando com mais cuidado, percebi que os numerosos momentos de infelicidade eram justamente aqueles em que eu entrava em contato com a pessoa real. Seus insuportáveis defeitos, suas faltas intoleráveis. Quem é essa pessoa?, eu pensava. Alguém capaz de me magoar, de não entender minhas melhores piadas, não segurar minha mão na rua? Alguém que tem ataques de ciúme, que troca minha companhia por outros programas, que não tem um abraço infinito? Quem é esse cara que inventou bobagens para me conquistar, que mentiu descaradamente, que subestimou minha inteligência? Quem é esse desconhecido que não apoia meus sonhos, que duvida da minha capacidade, que não sabe ser generoso?

Muitas vezes fechei meus olhos porque não queria ver. É triste admitir a derrota. É difícil reconhecer que investimos tanto numa ilusão. Mas nada mais infeliz e patético do que insistir no engano, enquanto a realidade grita desesperadamente para sair de dentro do pequeno baú em que se encontra acorrentada.

Um dia conheci um homem de verdade. Não havia nada além de verdade no modo como ele me olhava, nos sorrisos que me dedicava, mesmo antes que qualquer um de nós soubesse que o interesse era recíproco. Era tudo verdade no seu passado, na sua família, na sua vida. Só verdade preenchia nossos encontros, nossas conversas, nossa saudade, nossos desejos, nossos planos para o futuro. 

Eu logo me apaixonei. Não queria saber de mais ninguém, os casos pretéritos pareciam tão distantes que mal me lembrava de seus nomes, mesmo daqueles que ainda telefonavam e não eram atendidos. No dia em que nos beijamos pela primeira vez, senti que o tempo podia parar ali mesmo. O coração se dividia entre a ansiedade pelas delícias do porvir e o medo de que elas não viessem. Ele era tudo que eu queria.

Ele me atraía sob todos os aspectos: física, intelectual e afetivamente. Tratava-me com respeito e admiração, demonstrava o desejo mais intenso que já conheci, olhava para mim como se eu fosse a mulher mais linda do mundo. Tinha o maior interesse em desvendar cada característica minha e me fazia rir. Devo confessar que senti medo de estar, mais uma vez, amando uma criação da minha mente fértil.

A certeza de estar apaixonada por uma pessoa real só veio quando descobri, satisfeita, que ele não é perfeito. Ele tem seus defeitos e às vezes erra. Jamais seria irresponsável comigo e com meus sentimentos, mas nem sempre sabe a forma certa de agir. E nada disso o torna menos apaixonante, menos amável. 

Reconhecer nele um ser humano e, portanto, sujeito a falhas, foi reconfortante. Felizmente ele não é perfeito, caso contrário, não existiria. E, se existisse, eu não o mereceria. Ele é apenas uma pessoa real, característica que, somada a todas as demais, torna-o apto a ocupar de modo vitalício o lugar de amor da minha vida.

Não preciso me refugiar num mar de fantasias, nem esperar eternamente por impossíveis mudanças de comportamento ou de caráter. A realidade é uma delícia! Momentos ruins são tão raros, tão pequenos, tão facilmente superáveis, que se perdem no tempo, no esquecimento. Os momentos de felicidade se sucedem com tanta naturalidade que não precisamos nos agarrar à lembrança de um deles com a esperança de que um dia retorne. 

Agora, pense de novo e me responda: quantas vezes você se apaixonou por uma pessoa real? Esse alguém que ocupa seu coração e seu pensamento hoje é de verdade ou pura imaginação? Se após um exame acurado o diagnóstico for ilusionite aguda, não se desespere, isso tem cura.

Talvez o tratamento exija apenas a aceitação das pessoas como são. Defeitos muitas vezes são o que fazem o charme de alguém. Além disso, todos passamos por algumas penas na vida que desenvolveram nossos calos. Ninguém está livre disso. Acrescentar uma dose de compaixão ao olhar e enxergar a situação como um todo pode nos fazer menos críticos e mais tolerantes.

Existem defeitos, porém, que não merecem ser suportados. Um cara que não a respeita, que não a trata como prioridade, que não se comove com seu sofrimento e não faz planos com você não merece esforço. Um homem que trai, que não é seu melhor amigo, que não deseja ardentemente fazê-la feliz é um desperdício de tempo. Se os defeitos dele constam numa lista de coisas abomináveis para você - não para mim, para suas amigas ou para sua mãe, mas para você -, não perca seu tempo tentando transformá-lo. Parta hoje mesmo em busca da realidade.

Ela pode parecer assustadora no começo, mas eu garanto que, enquanto o seu coração bater, você terá forças para enfrentá-la. Confie em mim. Não é que um dia você acorda e percebe que está vivendo seu sonho. A grande sacada é que, quando você aprende a amar alguém de verdade (começando por você mesma), com todas as dificuldades que isso implica, qualquer dia da realidade é mais gostoso que a mais bem elaborada de suas fantasias. Sonhar é bom, mas delícia mesmo é acordar.

Beijos!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O caminho ao seu lado

Desconsiderando a hipótese do masoquismo e todas as possíveis formas de busca (consciente ou não) pelo sofrimento, creio que existam dois jeitos para uma pessoa obter êxito em seus propósitos: só ou em boa companhia.

A pessoa desacompanhada administra com exclusividade seus próprios desígnios. Presta satisfações apenas e tão somente a sua vontade e a sua consciência (ou à falta delas). 

A independência absoluta não é feita só de alegrias, porém. O ser humano, por natureza, refugia-se na companhia dos outros. Somos criaturas essencialmente sociais. E assim, fazem falta ouvidos atentos aos nossos desabafos. Carecemos de apoio para nossos projetos, de refrigério a nossos lamentos e de aplausos a nossas conquistas. 

De qualquer forma, por mais que incomode, a carência não será empecilho insuperável para quem tiver firmeza em seus objetivos. Certamente grandes feitos podem ser obra de quem não tem companhia melhor do que seus próprios sonhos. 

Hoje quero falar, contudo, da experiência de ter ao lado o melhor dos companheiros. Nenhum desafio parece ser maior que minha capacidade de vencê-lo, porque conto com o seu apoio. Nenhuma de minhas intenções é tratada com desdém. Eu posso manifestar o desejo de comer penne ao pesto no jantar ou de colocar meus pés sobre a superfície da lua; meu amor jamais me dirá que é impossível ou que é tolice. Antes, perguntará como pretendo fazê-lo e no que ele pode ser útil.

Não é só com o entusiasmo dele pelos meus potenciais triunfos que eu posso contar. Ele me oferece suporte real, encara o desafio ao meu lado. E não é raro entre nós que um adote as causas do outro como suas, não só por amor, mas também pela enorme afinidade de nossos interesses.

O sucesso a dois pode parecer mais fácil, justamente por satisfazer as necessidades emocionais de conforto, apoio e reconhecimento. E é. Entretanto, é fundamental – e não muito fácil – encontrar o parceiro certo.

Não basta ser alguém que esteja ao seu lado fisicamente, ocupando lugar no espaço. É preciso ser mais que uma companhia. Claro que para algumas pessoas pode ser suficiente alguém que simplesmente esteja por perto. Para mim, sorte maior é alguém que compartilha dos meus objetivos. Que não está ali por acaso ou falta de opção, mas tem uma razão (ou mais) para seguir na mesma direção que eu. 

Tenho certeza de que nunca na minha vida adulta eu sorri tanto como faço vivendo com meu amor (talvez quando bebê eu também acordasse sorrindo). Deve ser porque os sonhos jamais pareceram tão palpáveis. como agora. Ou, dizendo de outra forma: nunca antes dele a realidade chegou perto de superar minhas fantasias. E ao seu lado eu sempre sinto que vale a pena abrir meus olhos pela manhã.

Delícia, parabéns para nozes por esses dois primeiros meses em nosso lar-doce-lar! E grata por você existir! Amo você.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Inovações culinárias

O clima em Curitiba nessa sexta-feira foi algo realmente fora do comum. Além de muita, mas muita chuva mesmo, passamos o dia aos sobressaltos com trovões balançando as janelas e clarões de relâmpagos que iluminavam um dia particularmente escuro. Por fim, por volta das 20h, abriu o maior sol, como se estivesse amanhecendo, e dois enormes arco-íris nos acompanharam no caminho para casa.

Com tanta água desabando, muita gente desmarcou compromissos, faltou ao dentista, os salões de beleza ficaram vazios e, provavelmente, os bares também. E eu ainda não havia feito nada de diferente no dia. Almocei no mesmo restaurante de sempre, trabalhei, cumpri meus prazos, naveguei na internet... Nada de novo.

Felizmente, o friozinho e a chuva fizeram o clima perfeito para pilotar o fogão e preparar uma sopinha de batatas, frango e champignon, servida dentro de um pão italiano coberto de azeite de oliva por dentro e por fora, e levado ao forno até ficar crocante. O momento foi ideal para também abrir o vinho que o Dé ganhou de Natal da melhor sogra do mundo - a dele. 

E então a experiência diferente do dia foi preparar assim, de última hora, sem planejar, uma ocasião perfeita para celebrar o amor.

Clique para aumentar.
Breve desacordo entre o marcador de horas do forno micro-ondas e o do forno elétrico.


Beijinhos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O que é aquilo?

O vídeo abaixo, um curta do grego Constantin Pilavios, é capaz de traduzir com grande sensibilidade e em poucos minutos algo que eu precisaria de vários parágrafos para verter em palavras. Se você assistir ao vídeo, creio que eu não precise dizer nada.





Em tempo: conheci o filme pelo Sedentário & Hiperativo.

Claro que não chorei. É que sofro de uma irritação da córnea que faz os olhos lacrimejarem diante de pequenos vídeos emocionantes, entende?

Beijos

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Projeto Cuidar de Mim - parte 1


Cuidar melhor de mim não é exatamente uma meta de ano novo por dois motivos: o primeiro é que não foi uma decisão tomada há 6 dias; o segundo é que não é uma determinação com prazo de validade, e mesmo que houvesse ele não seria de apenas doze meses.

Dito isso, quero registrar desde já alguns avanços. Antes, ainda, confesso que a tarefa – que deveria ser bastante simples – pareceu-me excessivamente complexa. Como um jogo de sudoku (novo vício) em que não sei por onde começar. O tempo transcorre enquanto observo os quadrinhos e seus poucos algarismos iniciais. Linhas, colunas, quadrados. Busco uma solução lógica que assegure a colocação perfeita do primeiro número. A partir dele, sei que os outros virão.

Assim tem sido a observação da minha vida. Sim, antes de começar a organização, é preciso observar, detectar falhas, traçar algum plano. Decidir o que deve ser dispensado, determinar onde guardar o que está fora de lugar, perceber o que está faltando e como/onde conseguir. Porém, quando não se sabe nem por onde iniciar o plano, bem, estagnar não é uma boa escolha. A contemplação deve ter fim, e a ação deve começar, de um jeito ou de outro. Como disse Regina Brett, “when in doubt, just take the next small step” (quando estiver em dúvida, apenas dê o próximo pequeno passo).

É óbvio que não sou a única com a sensação de que algo está faltando, algo está errado, algo está incomodando, sei lá, algo tem que mudar. Por alguma razão, eu sempre soube (porque, é claro, eu mesma decidi isso) que não teria força de vontade para me empenhar na implementação de melhorias em outras áreas da minha vida enquanto a afetiva estivesse uma bagunça. Cada pessoa sabe (ou deve saber) por qual prateleira começar a arrumar o armário. Qual cômodo deve receber prioridade na hora da faxina. Porque se não der tempo de limpar tudo... Não é?

Então agora essa área está muito bem, obrigada. Mas perceba: eu disse que está bem, não disse “resolvida”. Qual a diferença? Simples: o amor guardado dentro da gente, buscando quem o mereça, não é exatamente um problema que careça de solução. Além disso, e mais importante ainda, “solução” pressupõe “desfecho”, “termo” (até mesmo na medida em que representa o fim de um problema), e o amor está longe disso.

Amor é cultivo. É diário. É contínuo. Muitos amores terminam não por motivos terríveis como traições e desilusões, mas por mera desatenção. Há casos em que a sintonia termina (ou simplesmente se constata que ela nunca existiu), e terminam lado a lado dois desconhecidos. Em outros, a intimidade é superestimada e termina o encanto. Grosserias, indelicadezas, descontar frustrações. Logo com a pessoa amada? Como assim? Descontar no chefe seria melhor, mas ninguém o faz.

Existem casos, também, em que uma pessoa tem grandes sonhos, e seu par não oferece um mínimo de suporte, sequer emocional. Em alguns casais, há aquele que brilha, que se destaca, que cresce, e o outro fica à sombra até desaparecer. Em outros, a ternura simplesmente se esvai, na rotina cinza e fria, e então quais os motivos para permanecer ao lado de alguém sem carinho, solidariedade, respeito, cumplicidade, calor? Tem também aqueles que se unem exclusivamente por atração física, que não basta para segurar a barra do dia-a-dia.

Deve haver ainda outras milhares de possíveis razões para um amor não sobreviver, e apenas uma para que ele prospere: a vontade de ambos. Aquele cuidado constante e eterno por quem a gente quer bem.

No casamento dos meus amigos Tati e Felipe, o celebrante (Des. Salvatore Astuti) disse que quem quer ser feliz deve continuar solteiro. Casamento é para quem quer fazer feliz. Ontem fez um mês que eu e o Dé estamos morando juntos, e nesse tempinho tenho confirmado, a cada dia, a verdade desse pensamento.

Não tenho nenhuma dúvida de que o sucesso de uma união só é possível quando ambos estão dispostos a abrir mão de muita coisa em nome da felicidade de seu amor. Assim, nenhum fica desatendido, já que um cuida do bem estar do outro. Não tem lugar para egoísmo numa vida a dois, pelo menos não numa que seja feliz.

É por isso que o Dé vai de ônibus para o trabalho e deixa o carro dele comigo quando tem reunião muito cedo, pra que eu possa dormir mais um pouquinho. É por isso que eu preparo algo para comer à noite mesmo que eu não esteja com fome. É por isso que ele lava a louça depois que eu termino de cozinhar. É por isso que eu lavo as roupas dele. E assim por diante. Também por isso que a gente conversa, compartilha, acrescenta e apoia um ao outro, sonha junto.

Dizer que o amor requer cuidados contínuos pode dar a impressão de que é um trabalho desgastante, quando, na verdade, é a coisa mais gratificante que existe. Mas, por falar em gratificação, isso leva à próxima prateleira que pretendo arrumar. Estando a afetiva em ordem (e em constante manutenção), é hora de começar a dar um jeito na material.

Eu não gosto de falar de projetos em andamento, e sim de resultados, portanto, aguardem novidades. Mas tenham paciência! Como eu disse, cuidar de mim não é a meta do ano, e sim de uma vida. Apesar da pressa para organizar a minha vida no aspecto material, isso exige cautela e passos precisos. Talvez as próximas notícias não cheguem nesse ano ainda. Mas chegarão.

By the way, feliz 2010!

Beijinhos

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dois palitos

Sempre que meu chefinho me passa mais algum selviço e eu faço aquela cara de oh, man, ele se sai com essa: "isso aí você faz em dois palitos". Bem que eu queria saber (e aposto que nem ele sabe) a origem de tal expressão, mas o fato é que hoje estou mesmo é precisando de dois palitos para manter os zolhinhos abertos. Zentsi, que soninho!

Ocorre que eu e meu namorido compramos uma casa. Uma casinha linda, de três quartos, com quintal, árvore, todo um sonho. Aí aquele pequeno projeto humilde foi tomando proporções inimagináveis, tcheepo assim, ahm, já que a casa é NOSSA, não uma coisa assim toda alugada, vamos investir, néam? E aí é investimento que não se acaba mais.

Primeiro foi a cozinha e o closet planejados. Escolhidos depois de nada menos que 15 projetos e respectivos orçamentos. Sim, eu disse QUINZE ORÇAMENTOS. Se você já foi alguma vez a uma loja de móveis planejados e assistiu todo faceiro ao processo de confecção do projeto - arrasta pra lá, puxa pra cá, estica aqui, encolhe acolá - no programinha de computador (Promob), você não imagina a gastura que é ver esse negócio acontecer pela quadrigésima milésima nona vez. Dá uma vontade de chacoalhar o cerumano ali e ver se ele acelera a bagaça porque já é a oitava manhã de sábado que você deixa de dormir pra ficar vendo a cozinha virtual acontecer.

Mas eu nem imaginava que aquilo era só o começo. Depois veio a reforma. Sim, porque a casa é nova, mas o construtor parece ter contratado a mão de obra de chimpanzés cegos e mancos. Assim, embora o porcelanato usado no chão seja bonito, não dava pra gente se conformar com aquele rejunte da grossura de um tornozelo, e com o piso todo desnivelado. Simplesmente não ia combinar com a beleza dos móveis planejados. Sentiu a armadilha?

Uma coisa levou à outra, e de repente estávamos decididos a colocar piso laminado e uma cerâmica nova na cozinha. Para isso, nosso pedreiro arrancou os rodapés de porcelanato, que serão substituídos pelos de madeira. Com essa manobra inteligente, obrigamo-nos a repintar a casa toda por dentro - note que a pintura era novinha da silva, mas arrancar os rodapés obviamente deixou a parte inferior das nossas paredes parecendo cafofo de miss laje.

Não vou nem tocar em outros detalhes como a área de serviço que cobrimos, o piso da garagem que era de brita e hoje está cimentado, e tantas outras coisas que às vezes nos fazem cogitar se nosso pedreiro vai acabar morando lá e a gente não. Importante agora é o quesito pintura.

Todo mundo que já montou casa e/ou fez uma reforma sabe que qualquer servicinho que você pede custa um rim ou órgão de maior importância vital. Como arranjar um profissional que preste é coisa da maior dificuldade, a gente até paga com a consciência leve o nosso pedreiro, o Cliverson (queria o quê? um Pedro de Alcântara Machado?), porque o cara é firmeza mesmo. De absoluta confiança, faz um trabalho caprichado, preciso, e ainda limpa tudo antes de ir embora. Difícil acreditar, né? Um pedreiro limpinho. Pois ele passa esponja úmida pra tirar resíduos de rejunte, argamassa, cimento ou uaréver, varre o pó, enfim, o cara é dez. E o preço que ele cobra é o  mesmo praticado por aí, fizemos outros orçamentos também. E olha como eu consegui fugir do assunto de novo.

Bom, desde que percebemos que a pintura seria necessária, eu quis encarar a tarefa e economizar uns tostões. Mas o Dé achava que seria muito complicado e talz, e a minha sogra ficava o tempo todo botando uma pilha que não valia a pena a gente cansar tanto, que era melhor pagar pra alguém fazer, que coitadinhas das crianças (eu e ele). Mesmo assim, o Dé concordou comigo e começamos o trabalho.

Como a parede em que ficará o closet é uma parede externa e num quarto que não bate tanto sol, resolvemos aplicar um impermeabilizante nesse quarto, batizado de quarto 2. Como o quarto 3 fica do mesmo lado da casa e um dia será o quarto do bebê, resolvemos impermeabilizá-lo também. E, claro, já que estávamos com a mão no vedapren parede mesmo, já garantimos a brancura eterna do teto do banheiro. Xô, mofo! Fora, bolor! Mofo e bolor não são duas palavras horrorosas? Fronha também, né? Ops, foco no assunto, Oksana, foco.

Ao final desse sábado fatídico, tínhamos dado somente a primeira das três demãos necessárias do impermeabilizante, que vem antes da tinta (pelo menos duas demãos). E já não conseguíamos erguer os braços acima da cabeça e a cada passo parecia que o fêmur ia se descolar da bacia [EXAGERO MODE: ON]. O Dé tentava não parecer muito pessimista, mas eventualmente deixava escapar um "será que vamos conseguir?", "será que vamos sobreviver?". Okey, okey, acabei me rendendo.

No domingo, então, liguei para um pintor indicado por uma amiga da minha mãe, que se disse impressionada com o capricho e com o preço baixo que ele cobrou. Lá foi o Junior fazer orçamento para nozes. O cara tem quase dois metros de altura, imagino que deve ser uma vantagem no serviço, nem precisa de escada ou do cabo extensor para o rolo de pintura. Dá pra pintar o teto sem esticar o braço. Expliquei pra ele o serviço, que já compramos a tinta e todo o material necessário.

Ele passeou pela casa, sentiu a textura da parede nas mãos calejadas. Disse que pintura nova é uma beleza, que não precisa lixar nada nem usar massa corrida, que está acostumado a pintar cada parede que é só buraco, uma tristeza. A nossa expectativa por um preço muito baixo era crescente. Concluiu dizendo que terminaria o serviço em cerca de cinco dias. E queria R$ 400,00, que poderíamos pagar em duas vezes: uma no 2º dia de pintura e outra no 5º, quando ele terminasse. Sim, porque meu salário eu também recebo uma vez a cada 3 dias. Você não?

Eu e o Dé ficamos naquela de um tentar decifrar o que o outro estava pensando, mas a telepatia estava desligada ou fora da área de serviço. Eu disse ao Junior Gigante que iríamos pensar e, se fosse o caso, voltaríamos a telefonar pra ele.

Enfim, sós, o Dé me confessou que estava se sentindo mais Michelangelo do que nunca, super a fim de jogar umas tintas naquelas paredes. E o Gigante que vá tapar buraco de algum teto horroroso por aí. É que R$ 400,00 são uma verdadeira fortuna pra quem ainda precisa colocar cortinas, mobiliar o resto da casa, comprar utensílios, eletros, terminar de pagar o pedreiro, além das astronômicas faturas de cartão de crédito em que parcelamos o máximo possível as compras de material de construção, isso tudo sem contar, é claro, o financiamento dos móveis planejados e da própria casa. Se sobrar algum, é capaz até de a gente se alimentar. E quem sabe um dia eu possa voltar a ir ao salão fazer minhas unhas (dinheiro jogado fora agora que elas estão todas destruídas e encardidas de impermeabilizante).

Todo esse relato emocionante foi só pra ver se ganho uma casa prontinha e mobiliada no Construindo um Sonho do Gugu explicar a razão de eu estar parecendo um zumbi sorumbático me arrastando pelo escritório a cada 15 minutos em busca de mais 250ml de café. É porque todos os dias eu e o Dé estamos saindo do trabalho e indo direto para o nosso 3º turno, quando colocamos roupinhas surradas e encarnamos os pintores felizes daquele que será em breve nosso lar, doce lar. Aí a gente fica até onze da noite pintando (coisa que quase não cansa o corpinho véio), depois vai pra casa tomar banho-comer-dormir e acorda 6h da manhã pra trabalhar.

Não, não vestimos macacões jeans (péssimo), não pintamos a cara um do outro e terminamos nos amando em meio às tintas. A coisa não é hollywoodiana assim. É certo que brotam inesperadas declarações de amor entre uma pincelada e outra. Acho que é pela felicidade de ver a parceria ilimitada, um amor que resiste às intempéries, que encara o que poderia ser visto como dificuldade apenas como mais um passo do caminho. Sem perder a ternura e o bom humor.

Ai, Senhor, agora dai-me forças pra fazer essa contestação, pra depois voltar aos pincéis e rolos de pintura. Forças e dois palitos, por favor!